J. K. Rowling

Entrevista com JK Rowling no Telegraph

A revista Tatler publicará em sua próxima edição uma entrevista com a autora JK Rowling. O jornal britânico The Telegraph disponibilizou em seu site parte da entrevista na qual a autora fala, entre vários assuntos, sobre o próximo livro e se emociona ao falar de sua mãe.

“Na noite em que ela morreu, eu estava na casa dos pais do meu namorado, o primeiro natal que eu passei for a de casa. Eu tinha ido cedo para a cama pretendendo assistir ‘O Homem que queria ser rei’ (The Man Who Would Be King), mas ao invés disso, eu comecei a escrever. Então, eu estava escrevendo Harry Potter no momento em que a minha mãe morreu. Eu nunca havia contado à ela sobre Harry.[Continua…]

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JK ROWLING
“Existiriam tantas coisas para dizer à ela…”

Geordie Greig em 10 novembro de 2006
Tradução: Carol, Gabi e Julio

Uma lágrima escorre levemente pelo rosto de JK Rowling. Ela está sentada em sua ampla e confortável sala de visitas em Morningside, uma área de Edimburgo, relembrando o momento mais traumático de sua vida.

Foi o dia em que sua mãe, Anne, morreu aos 45 anos de idade após dez anos de luta contra a escleróse múltipla. Uma pequena parte de sua agonia se deve ao fato de que sua mãe nunca soube que ela estava escrevendo Harry Potter, muito menos de que ela se tornaria a autora mais famosa do planeta.

“Na noite em que ela morreu, eu estava na casa dos pais do meu namorado, o primeiro natal que eu passei for a de casa. Eu tinha ido cedo para a cama pretendendo assistir “O Homem que queria ser rei” (The Man Who Would Be King), mas ao invés disso, eu comecei a escrever. Então, eu estava escrevendo Harry Potter no momento em que a minha mãe morreu. Eu nunca havia contado à ela sobre Harry. Papai me ligou às sete horas da manhã do dia seguinte e eu já sabia o que ele iria me contar antes mesmo de ele ter começado a falar. Enquanto eu descia correndo as escadas, eu tinha aquele pânico agudo em minha mente, mas não tinha ainda a mínima noção da profundidade da perda pela morte da minha mãe.”

Era reveillon de 1991 e Joanne Rowling, então com 25 anos, e seu namorado entraram no carro dele e dirigiram rumo à casa dos pais dela em Wales. “Eu tinha uma alternância de sentimentos, uma hora eu estava em frangalhos e na seguinte experimentava a negação. Em certo momento, durante a viagem de carro, eu lembro de ter pensado “Vamos fingir que isso não aconteceu, já que essa era uma boa maneira de enfrentar os dez minutos seguintes.”

Rowling se impressiona com suas lágrimas. Ela é naturalmente uma pessoa reservada. Ela é também muito centrada e controlada. Ela leva um lenço até os olhos e pausa antes de continuar: “Não tem um dia em que eu não pense nela. Eu teria tanto para contá-la, muito mesmo.”

Uma prioridade em sua vida agora é angariar fundos para as pesquisas sobre a esclerose múltipla, doença a qual confinou sua mãe em uma cadeira de rodas em seus dias finais.

“Ela era tão jovem e tão saudável. Ter o seu corpo em guerra contra você é uma coisa terrível de se testemunhar, ainda mais de se sofrer,” diz Rowling, agora embaixadora da Sociedade de Escleroses Múltiplas de Edimburgo.

Em 17 de março, ela irá ser a anfitriã de um baile de máscaras no Castelo de Stirling, uma das muitas atrações será uma caça ao tesouro com pistas criadas por ela.

As condições de sua mãe influenciaram sua própria força de vontade e vulnerabilidades, assim como serviu de experiência para que ela fizesse com que Harry também sofresse com a morte de seus pais.

Seu estudante órfão com sua cicatriz se tornou um dos mais famosos personagens da literatura infantil, vendendo mais de 300 milhões de livros em 63 países; alguns dos livros de Harry Potter venderam mais de três milhões de cópias em apenas 48 horas após o início das vendas.

A morte é a chave para entender J K Rowling. Seu maior medo – e ela não hesita nem um pouco no assunto – é a morte de alguma pessoa que ela ame. “Meus livros são basicamente sobre morte. Eles se iniciam com a morte dos pais de Harry. Existe a obsessão de Voldemort em vencer a morte e seu desejo de se tornar imortal a qualquer preço, a meta de qualquer um com magia. ”(*) (*)Tendo lido os livros, acreditamos que essa transcrição foi feita incorretamente

“Eu consigo entender o porque de Voldemort querer vencer a morte. Todos temos medo em relação a isso” No sétimo e último livro de Harry Potter, terão mortes tanto de pessoas boas, quanto de pessoas más.

Ela estava falando com seu marido, Neil, recentemente, após ela ter acabado de escrever a morte de um personagem específico. “Ele estremeceu. ‘Oh não faça isso’, disse pra mim, mas é claro que eu fiz.

E com um giro de sua caneta, milhões de crianças irão chorar ou rir. Incontáveis sites de Harry Potter tentam prever o que irá acontecer no livro final. “Neil é a única pessoa que eu posso conversar sobre o que acontece porque ele esquece instantaneamente,” ela diz, rindo.

Nada na vida dela pós-Harry Potter continuou a ser a mesma coisa. Ela conheceu a Rainha duas vezes: “Minha mãe teria adorado eu ter telefonado dizendo ‘eu vou ganhar o OBE (Order of the British Empire), mas você não pode dizer aos vizinhos.’ Você pode imaginar! Isso seria tão difícil pra ela. ”

Nelson Mandela a convidou para ir à África do Sul: “Infelizmente, eu tive que dizer não, pois estava grávida.” Mais dinheiro do que ela pode gastar vai entrando – estimativas chegam ao topo de £500 milhões, com o Sunday Times Rich List a avaliando em £435 milhoes em 2004; ela nega freqüentemente os números.

Esta modesta, gentil mulher, nascida em Chipping Sodbury, Glaucestershire, não consegue realmente acreditar que é tão famosa quanto Wall Disney era em seu tempo.”Eu não consigo enfatizar o quanto eu estava perdida quando tudo isso aconteceu comigo. Eu estava totalmente perdida e ninguém que eu conhecia, conhecia alguém famoso. Então esse mundo era muito estranho pra mim e eu estava petrificada de medo.”

Mas você sabe que o seu RP poderia arranjar uma reunião com qualquer pessoa do mundo? “Quando você me diz isso, eu apenas acho esquisito. Eu não estou sendo insincera, eu não estou tentando ser modesta, mas isso ainda me surpreende e eu sou muito suspeita com isso.” Entre 800 e 1,000 cartas chegam toda semana; todas são respondidas. Ela já passou por ameaças de morte, perseguidores, cartas suplicantes e paparazzis observadores. Na Ilha Maurício, ela foi fotografada em longa distancia em seu biquini. Ter a filha dela, Jessica, nos jornais é o que realmente a assusta; ela sempre tentou a manter longe da imprensa.

É tudo bem distante da época em que era uma mãe solteira, sobrevivendo com £70 por semana, quando se preocupava se tinha o suficiente para ela e sua filha comerem. “Mais rica do que a Rainha” foi a manchete mais memorável depois que ela passou de desconhecida sem dinheiro para uma famosa com muito. Ela ri.

“Bom, eu certamente não vou reclamar por ter dinheiro. Nem por um segundo. É claro, torna tudo mais fácil. Se você já se preocupou: ´Será que o dinheiro dura até o fim de semana?´ você nunca, nunca vai reclamar por ter dinheiro. Ele te capacita, te deixa livre de preocupação. Permite que você faça viagens, ajude pessoas. Eu sou grata por isso todos os dias. ”

Com três casas – em Edinburgo, Perth e Londres – e um pequeno time de consultores, um excelente RP e duas secretárias, ela manteve seu mundo pequeno e controlável. Há pequenas extravagâncias. “Eu amo bolsas e eu amo sapatos.” Mas o gene sensato contribui.

“Eu tenho uma quantidade mental que eu não posso gastar a mais. Eu ainda tenho um limite para gastar no que eu acho futilidades.” E quando ela comprou os brincos Bond Street, uma culpa sensível a fez fazer um cheque do mesmo valor para uma caridade.

Ela sabia que dinheiro traz complicações e, como toda pessoa rica, imagina se pessoas se interessam por ela só por causa da sua renda. Isso foi até antes de conhecer Neil Murray. Despretencioso e fácil de se lidar, Muray é um ocupado médico geral que trabalha longas horas. Muito participativo como pai, ele não está interessado no centro das atenções ou nas bugigangas luminosas que o dinheiro traz.

“Dinheiro simplesmente não foi um problema com ele. Na verdade, Neil realmente não gasta dinheiro. Isso não é o que ele quer.” Duas crianças depois (David, dois, e Mackenzie, nove meses), eles não poderiam estar mais felizes.

Quão irônico foi, namorar uma mulher tão rica e famosa? ‘Eu havia pensado antes de conhecer o Neil que isto seria sempre um fator em minha vida de solteira. Certamente, antes de conhecê-lo, eu não tinha conhecido ninguém com quem eu quisesse casar. Eu pensava: ‘Eu não vou conhecer ninguém.’ Eu acreditei mesmo nisso. Eu dizia: ‘Tenho sorte, eu tenho o meu trabalho.’ ‘Eu tinha minha filha, não podia reclamar. Eu não sou do tipo que escolhe qualquer um. Sei que posso sobreviver sozinha. Já estive assim por muito tempo, mas não quer dizer que nunca senti solidão. Eu sentia, mas superei. Eu posso me virar sozinha.’

Hoje ela pode admitir que a pressão da fama a deixava quase confusa às vezes. “Eu nunca contei isto antes, mas quando me perguntavam repetidamente, ‘Como você está enfrentando?’, eu dizia: ‘Bem.’ Eu estava mentindo para mim mesma. A negação era minha companheira. A verdade é que eu poderia simplesmente ter dito: ‘Já que mencionou, é bastante difícil de enfrentar.'” “Eu vou para casa hoje sozinha cuidar da minha filha e sentirei uma enorme pressão.’ Eu estava isolada antes de ficar famosa, e ter fama no topo de uma situação já isolante não ajudava.” “Eu era hipersensível porque tinha uma filha do meu primeiro casamento. Era como se eu tivesse vivido embaixo de uma rocha por muito tempo e de repente alguém a levantou e apontou uma tocha para mim. Não é que a vida embaixo da rocha fosse terrível, mas na verdade eu estava petrificada e não sabia como lidar.”

Este ano, ela vai terminar de escrever a série de Harry Potter. O capítulo final, que já foi escrito, está em um cofre. Um novo livro infantil está completo também. É sobre um monstro e é o que Rowling chama de “conto de fadas político”. É indicado para crianças mais jovens do que as que lêem Harry Potter. “Eu nem contei ainda ao meu editor sobre ele.” Há também histórias curtas escritas.

Ela é tão normal. Suas bebidas preferidas são gim e tônico, a cominda que menos gosta é tripas. Sua heroína é Jessica Mitford e escritora preferida é Jane Austen. Ela parou de fumar há cinco anos atrás e passou a maior parte dos três últimos anos grávida ou cuidado de bebês. Ela é Cristã (Episcopal) e “como Graham Greene, minha fé é, às vezes, sobre se minha fé irá retornar. É importante para mim”.