J. K. Rowling

Entrevista completa da BBC Radio 4

Foi ao ar neste sábado na BBC Radio 4, a entrevista que Stephen Fry fez com J.K. Rowling. Na verdade, foi mais uma conversa entre os dois. Rowling não falou muito do que esperar do último livro, teorias, etc. O trecho a seguir já havia sido divulgado anteriormente, mas agora tem novas declarações:
JKR: Muito do que acontece no livro seis está ligado ao que acontece no livro sete. Você deixa o final do sexto e entra direto no sétimo.
SF: É mesmo?
JKR: Não será a aventura discreta que os outros livros foram embora exista a temática Harry versus Voldemort – e você sabe mais do que ninguém – há um incidente que já foi resolvido.
SF: Exatamente.
JKR: No seis, embora há um final que possa ser visto como definitivo em um sentido, você sente fortemente que a trama ainda não acabou e que irá continuar.

A conversa completa pode ser lida aqui.

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Tradução: Carmem, Pati e JúlioIntrodução do Show
Introdução da Radio 4: A criadora de Harry Potter, JK Rowling, raramente fala em público sobre seus livros, deixando sua criação e os livros recorde de vendas, fitas e filmes falarem por si próprios. Mas agora em Vivendo com Harry Potter, nós temos a chance de escutar uma conversa entre J.K Rowling e a voz do seu trabalho nos seis livros em áudio, Stephen Fry.

Stephen Fry: Foi no natal de quatro anos atrás que eu tive a estranha experiência de escutar eu mesmo no rádio o dia inteiro durante o Boxing Day quando a Radio 4 transmitia a gravação em áudio de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Foi um privilégio ser a voz do trabalho de J.K Rowling nesses seis livros, 2.764 páginas e 100 horas e 55 minutos de gravação. Os personagens são amigos conhecidos e inimigos para mim, e assim como outros milhões, eu ansiosamente espero cada novo volume.

Eu conheci a J.K Rowling pela primeira vez há sete anos atrás quando ela veio ao estúdio onde eu estava gravando o primeiro livro. Ela continua sem querer revelar quase nada sobre os livros e assim como milhões de fãs de Harry, eu sou fascinado em saber como é viver com Harry, da onde toda essa inspiração para os livros vem, sua opinião sobre as críticas que recebe e o que ela irá fazer quando terminar o último capítulo. Então quando Jo concordou em gravar uma entrevista comigo, eu aproveitei a chance.

Entrevista

SF: Jo, eu acredito que uma boa pergunta para iniciar essa entrevista é “Com qual personagem você se identifica mais quando está escrevendo ou lendo o que acabou de escrever?”

JKR: Provavelmente o Harry mesmo. Porque eu tenho que me imaginar na cabeça dele bem mais do que qualquer outro personagem, porque tudo é visto do ponto de vista dele. Mas há um pouco de mim em cada personagem, eu acho. Eles dizem que se escritores que hum…Bom, eu acho impossível não por um pouco de você em qualquer personagem porque você tem que imaginar suas motivações.

SF: Ocorreu a você quando estava planejando os livros, esperando que o primeiro fosse publicado, que tantas pessoas que nunca estiveram num colégio interno fossem se identificar com o particular mundo de um colégio interno que Hogwarts representa?

JKR: Bem, a verdade é que eu também nunca estudei em um, claro eu fui muito bem educada. Mas, era essencial para o enredo que as crianças pudessem ficar juntas em algum lugar durante a noite. Essa escola não podia ser só durante o dia porque a aventura iria terminar todo dia se eles voltassem para suas casas, conversassem com seus pais e daí voltassem no próximo dia para escola, toda…(risos)… toda semana para se dispersarem a noite. Então, tinha que ser um colégio interno. O que também era lógico porque onde mais iriam os bruxos educarem seus filhos? Esse é um lugar onde vai haver muito barulho, cheiros bem diferentes, raios de luz, e você iria querer segurar isso em um lugar consideravelmente distante para que trouxas não vissem isso o tempo todo. Mas, eu acho que as pessoas reconhecem mais a realidade de ver muitas crianças juntas em um só lugar do que o ambiente em si de um colégio interno. Eu não acho nem que eu reconheça. Eu acho que me identifico com como crianças são quando estão juntas.

SF: O ponto é que você criou um mundo, isso é o tipo de definição do que é uma ficção de sucesso, – ter um mundo que, de alguma maneira, é circunscrito por suas próprias regras, sua própria ética, seu próprio sabor e cheiro cultural e razões e você fez isso, por isso, é muito comum ouvir sobre crianças e adultos sonhando que eles estão em Hogwarts, sonhando que estão lado a lado com Harry, Ron e Hermione e assim por diante. E naturalmente o que vem como resultado disso também, é que você recebe estranhas vozes de aviso das pessoas que eu sempre imagino com cabelo de cor de aço com uma agulha de tricô enterrada atrás nas nádegas, brigando que de alguma forma isso é perigoso.

JKR: Sim

SF: …para pessoas, fora todo o negócio sobre se magia é ou não perigosa, pessoas as quais eu acho que podemos ignorar porque…

[JKR ri]

SF: Parece vir de tão incontroláveis vozes sem razão.

JKR: É tudo parte daquelas jovens senhoras que há 200 anos atrás não tinham permissão para ler livros porque iriam inflamá-las e excita-las e faze-las esperar por coisas que não eram reais, e eu me lembro ter ficado muito aflita ao ler, quando era bem jovem, sobre Virginia Woolf, para a qual haviam dito que não poderia escrever, porque isso iria exacerbar sua condição mental. Nós precisamos de um lugar para escapar, seja como escritora, seja como leitora e, obviamente o mundo que eu criei é um exemplo particularmente brilhante de um mundo para o qual é muito prazeroso escapar. Aquela bela imagem em C.S. Lewis, onde há os lagos, “O mundo entre os Mundos”, e você pode pular em diferentes lagoas para entrar nos diferentes mundos sempre foi para mim a metáfora para uma biblioteca. Eu sei que Lewis na verdade não estava pensando nisso quando escreveu…

SF: Isso foi uma metáfora cristã para ele, sim.

JKR: Claro. Mas para mim isso foi… pular nesses diferentes lagos, para entrar em diferentes mundos, e que lindo lugar,e isso para mim é o que a literatura deveria ser. Então se você ama Hogwarts ou a detesta, eu não acho que você possa criticá-la por ser um ‘mundo’ que as pessoas apreciam.

SF: Não. Precisamente, eu quis dizer isso, que é por isso… Isso exercita uma posse tão clara em todas as nossas imaginações, existe…

JKR: Eu li uma entrevista com você com a qual eu fiquei muito lisonjeada de ver que você, você desenhou um paralelo entre aquele mundo e o mundo de Sherlock Holmes e eu achei que foi uma comparação muito lisonjeada que também ressonou em mim porque quando eu lia as historias de Holmes, com certeza é…é um mundo que nunca realmente existiu. E ainda assim você pode acreditar de todo coração que ele existiu e, mais importante ainda, você quer que ele tenha existido, não quer? Então isso…

SF: Isso mesmo.

JKR: Por isso é uma leitura tão fabulosamente divertida.

SF: Sim. E por que Sherlock Holmes ainda recebe cartas para…

JKR: Sim, é verdade.

SF: Baker Street, 221b. E com certeza, é uma peculiaridade que você será acusada duplamente por criar um mundo no qual as crianças podem vangloriar-se em uma fantasia para escape e por criar um mundo que é assustador…

JKR: Mmm.

SF: Por que é tão cheio de perversidade e perigo.

JKR: Mmm.

SF: E com isso você poderia aborrecê-los. Agora eles não podem ambos…

[Ambos riem]

SF: Eles não podem ser ambos verdadeiros! Mas eu realmente acho que é um dos avanços na literatura infantil o que, o que você tem feito com essas notáveis séries em que você não tem restringido a dificuldade e o assustador e o desleal e o injusto e todas aquelas coisas que mais excitam as mentes das crianças.

JKR: Bem, eu sinto muito fortemente que há um movimento de desinfetar a literatura porque nós estamos tentando proteger as crianças, não de… necessariamente, de fatos pavorosos da vida, mas de suas próprias imaginações. Eu me lembro de ter estado na América há alguns anos atrás e o Halloween estava chegando e três programas de TV sucessivos estavam falando sobre como explicar para as crianças que não era real. Agora há uma razão para a qual eles criam essas histórias e nós sempre temos criado essas histórias, e a razão pela qual nós temos tido esses festivais pagãos e a razão pela qual até mesmo a igreja permite um certo medo. Nós precisamos sentir medo, e nós precisamos confrontá-lo em um ambiente controlado, essa é uma parte muito importante no crescer. E as crianças que tem sido protegidas pelos dementores na ficção, eu argumentaria que é muito mais para ser presa fácil deles na vida, na realidade. E, também, o que estamos dizendo às crianças as quais realmente tem distúrbios de medo e culpa? Estamos dizendo que isso é errado. E que isso não é natural e que não é algo intrínseco da condição humana que eles são, de alguma forma, estranhos ou doentes. [risos]

SF: Exatamente…

JKR: É algo muito perigoso para se dizer a uma criança.

SF: E culpa é o maior motivo para agressão que o homem tem e se as pessoas crescerem pensando que eles são peculiares por terem pensamentos obscuros ou por terem consciência de seu lado mais estranho e de suas vidas, então isso irá fazer deles terríveis seres humanos, não é?

JKR: Concordo plenamente.

SF: Porque um dos trabalhos em escrever, de alguma forma, é mostrar que você não está sozinho.

JKR: É. É sim. E certamente eu descobri que eu não estava sozinha através dos livros, eu acho, muito mais do que através das amizades do meu passado, porque eu era uma criança bastante introvertida.

SF: Sim.

JKR: E foi através da leitura que eu percebi que não estava sozinha em todos os níveis possíveis.

SF: Absolutamente e é um desejo central se você gosta, que os leitores sempre confrontam você com Harry, é que há essa extraordinária proximidade dele com Voldemort, com Aquele-que-não-deve-ser-nomeado, e que precisa ser nomeado, e eu acho que à medida que a série progride e nós sentimos “Meu Deus, não vai demorar muito agora, o que vai acontecer?”, há um grande leque de especulação, e eu não estou pedindo para você vir com nenhuma resposta aqui, mas há um grande leque de especulação sobre quão próximo é esse relacionamento entre o mais obscuro bruxo de todos e nosso herói que salvou o mundo.

JKR: Bem, uma questão que me perguntaram há um bom tempo atrás foi… “Voldemort era mesmo o pai de Harry?” e com certeza isso é realmente influência de Star Wars – Guerra nas Estrelas…

SF: Exatamente.

JKR:[risos] não é? E, er, não, ele NÃO irá se tornar Darth Vader e Luke Skywalker. Ele não está relacionado biologicamente com ele, de forma alguma.

SF: Não, essa é uma boa resposta para se ter. Eu acho que atualmente, um dos finais mais especulados, não estou certo se você está consciente disso, a medida que as apostas vão, é que Harry irá finalmente derrotar Voldemort ao custo de todos os seus próprios poderes e que ele acabará voltando para o mundo como um trouxa comum.

JKR: [Engasga]

SF: O que é uma idéia extraordinária.

JKR: É um bom final.

SF: É, é um bom final, se você gostar, pode emprestá-lo.

JKR: [risos] Isso seria um super-plagio de mais ou menos 13 milhões de crianças.

SF: Esse é um problema para você, não é?Você não está permitida de ler nada…

JKR: Não,não estou.

SF: Escrito por qualquer um,numa simples tentativa .Bem,vamos pensar no mundo que você usou em termos de suas próprias tradições, se você quiser, desde os diabretes da cornália até, você sabe, Kelpies (Kaapas?) e você sabe, a menção de tipos específicos de plantas como Mandrágora e assim por diante.

JKR: Mmm.

SF: Essas são todas coisas de verdade e muitas crianças irão, claro, imaginar que foi você quem inventou elas.

JKR: Eu tomei uma enorme liberdade com folclore e mitologia. Mas eu não estou nem um pouco envergonhada disso porque o folclore e a mitologia britânica é totalmente a mitologia que vocês conhecem. Nós fomos invadidos por pessoas, nós nos apropriamos de seus bens, pegamos suas criaturas místicas e juntamos tudo para fazer, o que eu chamaria, de um dos mais ricos folclores do mundo porque é muito variado. Então eu não me sinto mal em emprestar dela de graça e ainda adicionar …

SF: Absolutamente.

JKR: Mas você está certo sim, que crianças…ou elas sabem, obviamente elas sabem que eu não inventei unicórnios mas eu tive que explicar freqüentemente que eu na verdade não inventei hipogrifos. Apesar de um hipogrifo ser um tanto obscuro, eu dei uma pesquisada porque quando eu uso uma criatura que eu sei que é uma entidade mitológica…

SF: Sim.

JKR: Eu gosto de descobrir o máximo que eu puder sobre isso. Eu posso até não usar o que eu descobri,mas fazer meu enredo ficar mais consistente. Muito pouco sobre hipogrifos, eu poderia…

SF: É o mapa, não é, é o Aqui Estão os Hipogrifos.

JKR: Sim, exatamente. Aqui Estão os Hipogrifos, sim.

SF: Sim, como os Heffalumps (um elefante criado no desenho do ursinho puff) no Pooh.

JKR: Mas eles não parecem ter sido observados por naturalistas medievais.

[Ambos riem]

JKR: Então eu podia, eu podia ter tomado a liberdade.

SF: E presumidamente eles são, como seu nome implica, e isso nos trás para sua outra paixão que é a língua por si só no seu nível mais básico…

JKR: Arcadiano…

SF: De palavras e derivações em que hipogrifo é claro uma mistura de um grifo galês com o cavalo hipocampus grego.

JKR: Correto.

SF: O que é um exemplo perfeito, como você diz, da bastadização do seu folclore inglês, assim como a sua língua.

JKR: Como a nossa língua.

SF: É uma mistura perfeita.

JKR: O que torna a nossa língua tão rica.

SF: Exatamente.

JKR: Tão estruturada. Eu adoro

SF: Até mesmo coisas como Mundungus têm um significado.

JKR: Mundungus, isso não é uma palavra fantástica?

SF: E ela significa?

JKR: Tabaco fedido, o que realmente é adequado pra ele.

SF: Exatamente. Não é perfeito?

[JKR ri]

SF: Agora você realmente as encontra em livros de palavras raras ou…

JKR: Erm…

SF: Ou elas são apenas coisas que você de alguma forma, você tem uma boa memória para palavras?

JKR: Eu não fico procurando em livros. As palavras geralmente tendem a ser coisas que eu coletei ou tropeçei por aí em leituras gerais. A exceção foi Gilderoy. Gilderoy Lockhart. O nome, Lockhart, apesar de eu saber que é um sobrenome escocês bem comum …

SF: Sim.

JKR: Eu o achei em um memorial de Guerra. Eu estava procurando por algo meio glamuroso,um sobrenome meio atraente e Lockhart chamou minha atenção nesse memorial de guerra e foi isso. Eu não conseguia encontrar um nome cristão, e uma noite eu estava folhando o dicionário de frases e fábulas, conscientemente procurando por coisas em geral…

SF: Sim.

JKR: … que seriam úteis e eu vi Gilderoy que foi na verdade um ladrão de estradas e também um vagabundo bem atraente…

SF: Sério?

JKR: E Gilderoy Lockhart, isso soou…

SF: É uma perfeita…

JKR: Perfeito.

SF: Perfeito.

JKR: Impressionante e ainda, no meio, um tanto vazio, claro.

SF: Um também [inaudível], como a gente bem sabe.

JKR: Como a gente bem sabe.

SF: Então vamos agora para a parte mais importante, que sou eu.

JKR: [ri] Sim, vamos para você!

[Ambos riem]

SF: Eu imagino se o modo que eu li os livros alterou o jeito que você escreve eles.

JKR: Eu sei que eu lhe falei isso antes, teve uma época quando Jessica, minha filha que agora está com 10 anos, ela absolutamente ama as fitas e teve uma época quando eu estava escrevendo Cálice de Fogo em particular quando eu podia sentar para trabalhar durante a noite e eu podia escutar a sua fita vindo do quarto dela, o que foi uma experiência bem disturbadora, estar escrevendo um livro enquanto está ouvindo suas fitas da Câmara ou, você sabe, Azkaban.

SF: Sim.

JKR: Foi bizarro e eu senti que eu não podia escapar de Harry Potter, não havia escapatória. Eu podia ouvi-lo e eu podia vê-lo e eu estava escrevendo sobre ele e…

SF: Sim. Certamente eu tenho que dizer definitivamente que as formas, a ênfase, o balanço das suas frases realmente faz dos livros algo bom de ler nesse sentido.

JKR: Oh, isso é muito gentil.

SF: Realmente…

JKR: É muito bom eu ouvir isso.

SF: Às vezes escritores têm um senso maravilhoso de escrever, para as páginas e para as palavras, e também a parte do cérebro que faz isso.

JKR: Sim.

SF:Mas… mas lê-las é dificil, é muito difícil.

JKR: Viu, eu amo escrever diálogos.

SF: Sim.

JKR: Eu realmente amo escrever diálogos.

SF: Sim.

JKR: E uhm… quando eu escuto a sua leitura, me dá um novo senso de prazer porque claro que eu nunca li meu trabalho em voz alta.

SF: Mmm.

JKR: E ainda escutar os diálogos em voz alta…

SF: Mmm.

JKR: E eu sempre escuto você falar antes de escutar os atores, é algo bem bom porque eu sempre adorei escrevê-los.

SF: Cada vez que eu faço um livro novo tem um CD que o engenheiro no estúdio de som produz com todos os personagens e é…

JKR: Eu lembro, sim.

SF: É sempre ótimo, isso tem que estar no DVD na próxima vez.

JKR: Oh desculpa!

SF: É bom para que eu possa me lembrar de como, você sabe, de como a voz da Lilá é ou, você sabe.

JKR: Sim.

SF: Do que, cada personagem em particular…

JKR: Claro.

SF: Você sabe.

JKR: Jessica queria saber como, como você criou a voz da Hermione. Ela acha que você é muito brilhante fazendo a voz dela e… e ela não entende como alguém com uma voz tão grossa consegue fazer uma voz de menina. Então eu tinha que te perguntar isso.

SF: Essa é uma pergunta muito interessante. Eu sempre amei o comediante escocês Stanley Baxter, você se lembra dele?

JKR: Sim. [risos]

SF: E eu percebi, quando era muito jovem, quando eu tinha dez anos, que quando ele interpretava uma mulher ele deixava a voz mais profunda. Então ao contraio de fazer um falsete, ele fazia [fala com uma voz grossa] “Olá, eu sou Faith Douche.”

[JKR dá risadas]

SF: Ou qualquer coisa. [voz grossa] alguns personagens são estranhos como isso. [volta a voz normal] e é claro que para muitos personagens mulheres isso funciona bem.

JKR: Sim.

SF: Não para mulheres jovens, mas para adultas funciona muito bem.

JKR: Então é só suavizar a voz um pouco mais que…

SF: é um tipo de suavização, exatamente.

JKR: Sim. Eu me lembro, lembro de estar lá enquanto você gravava, e você [Risos], você disse para mim, “É bem difícil falar assobiando algo que não tem som de assobio nenhum” [risos]

[SF dá risadas]

JKR: E alguem falou assobiando algo como “Não faça isso.”
[os dois riem.]

JKR: Essa foi uma influencia que peguei de você, toda vez que eu quero que alguém fale assobiando, e o Snape faz isso muito, eu tenho que procurar se tem realmente a letra ‘S’ nas palavras antes de…

SF: Sim.

JKR: Antes que eu faça eles falarem. [risos]

SF: Bem, você sabe, isso foi com Snape e tudo que cerca ele, ele mesmo tem uns 3 ‘S’.

JKR: é, verdade. [risos]

SF: E a casa dele tem um S.

JKR: Exatamente!

SF: E tem uns deslizes, limo…você sabe, todo, todo…

[JKR da risadas]

SF: Todo o aspecto é de serpentes, parece. Agora uma pergunta que eu tenho certeza que deve ser perguntada muito à você e isso é há gerações agora, o herói infantil ideal é Harry Potter. Mas isso não existia quando você era uma criança. Quem era o herói com quem você ia caçar, o que você ia…

JKR: Vários.

SF: Bem , que você se imaginava com, você sabe…

JKR: muitos e muitos.

SF: Muitos.

JKR: Uhm.. eu gostava da heroina do “The Little White Horse”, porque ela era muito clara, franca e, a maioria das heroínas são muito bonitas.

SF: sim, verdade.

JKR: Ela tinha sardas e tinha cabelo vermelho e eu me identificava muito com ela.

SF: Eloise era um pouco assim também.

JKR: Sim, eu amo Eloise.

SF: Eu amava Eloise.

JKR: Eram tantos, eu amava E. Nesbitt. Ela é possivelmente a escritora infantil com quem eu mais me identifico.

SF: Sim.

JKR: Ela não era muito sentimental.

SF: ela não era, era?

JKR: E ela adorava detalhar as manias.

[SF da risadas]

JKR: Então uhm.. Sim, eu pensava que ela era muito, muito boa. Eu acho que escritoras são geralmente menos sentimental sobre historias infantis do que escritores, na minha opinião.

SF: Eu acho que voce esta absolutamente correta, é uma coisa estranha ficção infantil. Tem o tipo de aventura de garotos…

JKR: Sim.

SF: Que você conhece, eu acho, o maior exemplo desse estilo é o Treasure Island.

JKR: Sim.

SF: que é um dos livros mais bem escrito de qualquer gênero.

JKR: que é um livro maravilhoso, eu também o adoro.

SF: é realmente um grande livro, não é? Sim. E ele não tem quase nenhuma mulher nele.

JKR: é verdade.

SF: mas o que você fez, foi escrever um livro de aventuras de garotos mas…

JKR: mas com garotas! [risos].

SF: Também é um livro de garotas, o que é maravilhoso. E, você sabe, ninguém deve contradizer a idéia de gênero no livro, eu lembro de ver em um romance de Martin Amis, eu acho que no Information, [risos], o personagem tem uma longa passagem falando sobre esse assunto. Você sabe, eles deixam a mesa de jantar porque estão falando de “mulheres lêem um certo tipo de livros e homens lêem outro tipo de livros.”

JKR: aham.

SF: E que isso sempre “será de tal forma”.

JKR: sim.

SF: Mas, você acha… eu acho, acho que você deve receber mais cartas de garotas, porque garotas são melhores em escrever cartas você disse. [risos]

JKR: Eu tenho uma teoria. Era 50% de cada e minha teoria é que os pais estavam tão felizes que seus filhos estavam lendo que eles propunham que escrevessem cartas para mim esperando que assim o entusiasmo pela leitura continuasse. E eu ocasionalmente tenho cartas extraordinárias de garotos – cartas muito, muito, muito encantadoras de garotos-. Argumentalmente mais encantadoras, particularmente quando é uma carta escrita por alguém que obviamente não acha que escrever é fácil, me contando que é o primeiro livro que eles leram e o quanto eles gostam dele.

SF: é um elogio maravilhoso.

JKR: Oh sim, é.

SF: e um pensamento extraordinário, deve fazer você ficar corada e …

JKR: isso, me faz ficar vermelha.

[os dois riem]

SF: Alice no País das Maravilhas é um livro que os adultos gostam mais que as crianças.

JKR: Eu também acho.

SF: Mas é um comentário esplendido e muito sofisticado e é esse o porque de adultos gostarem de Alice tanto. Eu me pergunto se, simplesmente a experiência da primeira edição de seu primeiro livro, Harry Potter e Pedra Filosofal, se a questão de ter ilustrações veio à ser discutida? E se foi discutida como “Bem, esse é o maior romance infantil que nos publicamos em termos de tamanho..”

JKR: Sim.

SF: “Longo, não vamos adicionar nossas despesas…”

JKR: Não.

SF: “E contratar Quentin Blake ou qualquer outro”

JKR: Não. Mas voce está absolutamente certo. Esse foi o argumento exato. Eles também pensaram que ilustrações estariam mirando um novo mercado de leitores mais jovens do que a audiência que já tinham em mira.

SF: sim, eu acho que no final deu certo.

JKR: e eles estavam certos. A edição americana, é uma edição muito bem poduzida. Eu devo dizer, eles tem uma pequena imagem no começo de cada capitulo, e é algo q eu gosto. É só uma sugestão do que está por vir no capitulo.

SF: sim.

JKR: mas não é nada de página inteira.

SF: nenhuma ilustração colorida de página inteira.

JKR: Exatamente, nada desse tipo, embora eu adorasse ilustrações grandes. Eu costumava folhear o livro todo e achar todas as ilustrações antes de ler o livro.

SF: Ah claro, absolutamente. Tinham um cheiro característico, porque o papel era particularmente brilhante.

JKR: tinha um cheiro muito diferente.

SF: Argh! E às vezes eles eram assustadores.

JKR: Sim.

SF: Você sabia o que estava por vir que por alguma razão não gostava.

JKR: Sim.

SF: Eu ainda lembro de todos. É estranho, não é? Enquanto estamos falando da América, seus livros são publicados lá pela Scholastic, certo?

JKR: Scholastic, é.

SF: Eu lembro de você me contando sobre sua primeira sessão de autográfos lá…

JKR: Oh, aquilo. Sim.

SF: Você só esperava que houvesse poucos garotos com uma cicatriz desenha à lápis em suas testas mas havia…

JKR: Havia…

SF: Uma mulher coberta de ouro

JKR: [Risadas] Verdade.

SF: Conte sobre ela!

JKR: Havia uma mulher vestida de Mulher Gorda com uma moldura pendurada no pescoço. Aquilo foi extraordinário, e foi o mais perto que vou chegar por ser famosa.

SF: [Risadas]

JKR: Eu passei por uma porta no fundo da loja e houve gritos, gritos literalmente e as luzes se apagando e eu não sabia onde estava. Fiquei totalmente perdida. Eu penso como um mecanismo de defesa, quando estes eventos acabam, eu fico isolada e acho que tenho que me isolar e pensar que aquilo foi uma anomalia bem incomum. Depois eu volto para o meu escritório e fico convencida que esta é simplesmente a minha vida.

SF: Sim.

JKR: Eu acho esta uma pergunta muito difícil de responder, e eu criei os personagens, então não tem porque eu pensar que você vai achar mais fácil, mas vou perguntar. Existe algum personagem com quem você se identifica particularmente?

SF: A inteligência e aquele tipo leve de brilho…

JKR: De Dumbledore.

SF: …qualidade de Dumbledore. Eu sempre tive esta paixão por grandes professores. Com o primeiro personagem fictício que eu criei – William Ramsay, foi para um programa de rádio, era um velho Professor de Cambridge, um velho…

JKR: Eu costumava ouvir…

SF: [Risadas] Você consegue se lembrar de um Arquibispo de Canterbury chamado Ramsey, o último daquele tipo dos grandes e monumentais da Igreja da Inglaterra? O qual eu não vou mencionar, é claro.

JKR: [Risadas]

SF: E eu lembro dele sendo entrevistado por uma pessoa do tipo Malcolm Muggeridge que disse “Agora você vai ser um homem muito inteligente”. E ele perguntou “Eu sou, eu sou, eu sou inteligente, eu sou, eu sou?” [risadas]

SF: E o entrevistador perguntou “Bem, Sua Santidade, você poderia explicar o que é inteligência?” “Inteligência, inteligência. Mmmm mmmm, inteligência. Acho que é a habilidade de superar.”

JKR: Oh, é isso…

SF: É uma definição marivilhosa. É a inteligência, é o reino da esperteza, é esperteza, o sábio, o saber Alemão, wissenschaft, e por aí vai, e no talento é maravilhoso…

JKR: Vejo que você é Dumbledore.

SF: [Risadas]

JKR: Uma espécie de professor.

SF: E com senso de poder superar as dificuldades.

JKR: Sim.

SF: E não é o quanto você sabe.

JKR: Não. Completamente diferente.

SF: E você sente isso com aquela maravilhosa, ocasionalmente cansada qualidade que Dumbledore tem.

JKR: Mm-hmmm.

SF: Porque ele já passou por tanta coisa e ele pode superar embora quase nunca possa.

JKR: É exatamente isto. Dumbledore expressa seu arrependimento, sempre foi ele que soube e que teve a aflição de saber.

SF: Sim.

JKR: E uhm… E ele preferia não saber.

SF: Mas de todos, Harry Potter é o centro, porque ele é a consciência do livro. É o Harry que passa por todos os testes, experiências e todos os tipos de situações. E como com qualquer herói, você se compara com ele, há momentos que eu fugiria ou não ligaria. Eu usaria minha varinha embora não devesse.

JKR: Meu comentário preferido sobre Harry, na época do primeiro livro, foi de um garoto entrevistado na televisão, foi perguntado por que ele gostava tanto do Harry – o personagem – e ele disse “Ele não parece saber o que está acontecendo na maioria das vezes, e nem eu.”

SF: [Risadas] Isso é bom. [Risadas]

SF: Eu suponho que há momentos quando você, eu acho que mencionei isso com você quando li a Ordem da Fênix. Você tem que ser tão cruel com ele?

JKR: Bem, na Fênix, eu diria, como auto-defesa – Harry teve que sofrer por causa do que eu estou tentando dizer sobre ele como um herói, porque ele é um herói muito humano, e assim, obviamente, há um contraste entre ele, como um herói humano, e Voldemort que deliberadamente se desumanizou. E Harry, então, teve que chegar num ponto onde ele quase desistiu, não quis mais jogar, não quis mais ser o herói – ele havia perdido muito. E ele não queria perder mais nada. Por isso, Fênix foi o ponto onde eu decidi que ele teria este colapso.

SF: Certo.

JKR: E agora ele irá resurgir das cinzas, mais forte.

SF: É uma energia tão básica, especialmente com crianças, e nós a perdemos eu suponho, durante o perigo, o sofrimento da injustiça, que é uma das principais forças em todos os livros, certo?

JKR: O sentimento do garoto de 12 anos que eles têm injustamente acusado – a sensação ardente de sofrimento. Você está certo. Não deveríamos perdê-la.

SF: É.

JKR: Mas perdemos às vezes

SF: Sim.

JKR: Adultos perdem.

SF: É, isto é verdade.

JKR: Eu acho que o que mais acho extraordinário é – eu não sei quantos personagens eu já criei – como você acha as vozes para eles?

SF: Não é fácil de responder. Elas estão lá, mesmo que não seja a voz exata que você imagina, ela está lá em algum lugar. Há personagens como a Tonks que, por alguma razão, eu naturalmente senti que ela tinha aquele leve tipo de Burnley, um sotaque de Jane Horrocks.

JKR: [Risadas]

SF: E pareceu que encaixou perfeitamente.

JKR: É, sim

SF: E eu acho que a Shina, a produtora, tinha a mesma idéia.

JKR: Mm-hmm.

SF: E sobre este jeito de escrever do Norte. É algo que está lá. E tenho certeza que é inconsciente com você às vezes, você está escrevendo um personagem novo que usa frases que me faz pensar “Isso parece com Cockney, ou é um personagem mais velho ou mais jovem.”

JKR: Porque você sabia que Hagrid era do Oeste.

SF: Sim.

JKR: E isso foi a única coisa que eu quis te alertar antes que você começasse a lê-los e meu avião estava atrasado. Foi a primeira vez que nos encontramos. Eu cheguei lá e umas das primeiras coisas que você me disse foi “Eu fiz o Hagrid como um tipo de Somerset.”

SF: Sim.

JKR: Eu pensei “Graças a Deus por isto” porque eu achei que você faria dele alguém de Glasgow.

SF: [Risadas] Não!

JKR: Ele foi o único personagem que senti preocupada com o sotaque.

SF: É.

JKR: O que eu realmente gosto na sua leitura é que os sotaques não atrapalham. Eu sinto que você não quer se exibir com quantos sotaques e vozes você é capaz de fazer. Você não cria uma barreira entre o ouvinte e a história. Você entende?

SF: Perfeitamente.

JKR: Sabe o que quero dizer?

SF: É exatamente o que tenho em mente, não deixar que isso aconteça.

JKR: Sim.

SF: É para as pessoas não ouvirem a voz mais tarde. E você sabe como quando está lendo, às vezes você se perde e tem que voltar…

JKR: Sim.

SF: …porque você está prestando atenção nas letras e palavras. E então você pode ler um capítulo inteiro sem ter percebido que mudou de página.

JKR: Mm-hmm.

SF: E você sabe, a impressão e o papel não estão lá.

JKR: Correto.

SF: E deve ser o mesmo com minha voz quando eles estão escutando, imediatamente a mente deles está no mundo dos Dursley, Hogwarts, no Noitibus e tudo mais e eles não me percebem. E Shina, a produtora, e Helen têm bastante cuidado para que eu não exagere numa voz. Mas o único problema é o ritmo.

JKR: Sim.

SF: Eu acho muito importante atualizar a página.

JKR: Sim, sim.

SF: Porque senão você pode ficar muito calmo.

JKR: Mm-hmm.

SF: Mas você não pode abusar também.

JKR: Eu acho que não deveria insistir mas há alguma cena que você tenha particularmente gostado de ler?

SF: Todo aquele momento assustador no clímax da Ordem da Fênix, no Ministério da Magia. Eu adoro o fato de ter sido tão assustador e dramático. E eu adorei a crescente tensão daquelas esferas de vidro e o que eles significam e depois ficarem presos atrás das portas.

JKR: Há algumas crianças que me disseram que aceitaram mais facilmente quando você leu do que quando elas leram no livro e acho isso porque com a Fênix as pessoas esperam três anos, elas avançaram nele.

SF: Elas leram muito rápido. Elas foram em frente e perderam muitos
detalhes.

JKR: Foram muito rápidos. E alguns leitores já me disseram “Eu li de novo e há mais coisas do que eu imaginava.” Isso aconteceu porque leu em quase uma tarde, não foi? Então escutar sua leitura, eu acho, deu a eles um senso de onde estão.

SF: É verdade que você já tem todo o final planejado?

JKR: Sim, é verdade.

SF: Surpreendente.

JKR: É, eu sei o que vai acontecer no final. E às vezes eu tenho calafrios quando alguém adivinha algo que está bem próximo, então eu entro em pânico e penso: “Está tão óbvio assim?”. Depois outra pessoa diz algo tão sem sentido que eu penso: “Não, não está tão óbvio assim!”

SF: Excelente!

JKR: Eu sempre deixo uma abertura para seguir fora do caminho, mas este caminho é o que eu esssencialmente estou seguindo. Muito do que acontece no livro seis está ligado ao que acontece no livro sete. Você deixa o final do sexto e entra direto no sétimo.

SF: É mesmo?

JKR: Não será a aventura discreta que os outros livros foram embora exista a temática Harry versus Voldemort – e você sabe mais do que ninguém – há um incidente que já foi resolvido.

SF: Exatamente.

JKR: No seis, embora há um final que possa ser visto como definitivo em um sentido, você sente fortemente que a trama ainda não acabou e que irá continuar.

SF: Sei.

JKR: É um sentimento estranho, pela primeira vez eu estou ciente que estou acabando.

SF: O final está chegando;

JKR: É.

SF: É extraordinário.

JKR: Sim.

SF: Você sempre vai escrever porque é uma necessidade sua. Você acha que vai escrever para as crianças na próxima vez que produzir algo novo?

JKR: Umm… tem…

SF: Vai escrever para as crianças que eram crianças e são adultos agora?

JKR: [Risadas] Sim.

SF: Que foram sua primeira geração. [risadas]

JKR: De verdade, eu não sei. Tem um livro infantil que está mofando num armário que eu gosto muito, é para crianças mais novas, eu diria. Mas há outras coisas que eu gostaria de escrever também. Mas eu preciso achar um bom pseudônimo e fazer tudo secretamente.

SF: É.

JKR: Porque eu estou muito assustada, você pode imaginar…

SF: Oh, claro.

JKR: …por causa do grande apelo comercial que seria um livro
pós-Harry…

SF: É.

JKR: … e não tenho certeza se posso esperar por isso.