Transcrição​ ​estendida:​ ​J.K.​ ​Rowling​ ​e​ ​o​ ​time​ ​criativo​ ​por​ ​trás​ ​de​ ​Criança Amaldiçoada

//Por Gabriela Benevides - sexta-feira, 06 de outubro de 2017 às 10:39

Em entrevista à CBS, J.K. Rowling, o dramaturgo Jack Thorne e o diretor John Tiffany discutiram o processo criativo de Harry Potter e a Criança Almaldiçoada, a expectativa de levar a peça para os palcos da Broadway e a relação com os fãs.

“Para mim, eu sempre volto para os leitores. O fato de que as pessoas amam os livros, e os filmes também, e que essas histórias significam tanto para tantas pessoas, isso é tudo para mim. Nenhum escritor vai te dizer outra coisa. Eu tenho um amor e um respeito fenomenal por essas pessoas. Esqueça o lado material; eles me deram algo para fazer parte, na verdade, e um propósito que não tenho certeza se tinha antes. Acabou que eu podia contar uma história. Isso é tudo o que eu sempre quis na minha vida.” – J.K. Rowling

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada é a oitava parte da história de Harry Potter. Em cartaz desde 2016 no Palace Theatre, em Londres, a peça encanta tanto o público quanto a crítica. Na Broadway, o espetáculo contará com o elenco protagonista original da estreia britânica, a partir de abril de 2018.

“Teatro é um grupo de pessoas que sentam e assistem uma história contada por atores. Sabemos que haveria uma grande demanda por ingressos, por causa dos fãs. Mas também sabíamos que, se fizesse sucesso, poderíamos falar rapidamente sobre levar a peça para outros países, assim como estamos falando agora sobre levá-la para a Broadway, o que nos anima muito, né?” – John Tiffany

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Nessa transcrição estendida da entrevista, o correspondente Mark Phillips, que fez o primeiro perfil da autora J.K. Rowling para o “Sunday Morning” em 1999, conversou com Rowling, com o dramaturgo Jack Thorne e o diretor John Tiffany, que colaboraram na história da produção de [Harry Potter and the Cursed Child]. Uma continuação da história de Potter, agora um adulto e pai, a peça (apresentada em duas partes) tem sido o evento teatral do ano em Londres, onde ela ganhou um número recorde de 9 Olivier Awards (a versão britânica dos prêmios Tony). A peça agora vai para a Broadway e os ingressos serão vendidos no próximo mês.

MARK PHILLIPS: Deve parecer que tudo aconteceu em outra vida, não?

J.K. ROWLING: Sim e não. Quando eu lembro de nós no trem, parece que foi seis meses atrás. Então eu penso mais um pouco e lembro de tudo o que aconteceu desde então, sabe, na minha vida pessoal também, e então eu percebo de repente que não, eu criei mais dois seres humanos no meio tempo.

MARK PHILLIPS: E o que, mais quatro livros?

J.K. ROWLING: Sim. Bem, quatro, cinco, seis, sete, oito livros. Colaborei numa peça e escrevi dois roteiros. Sim. Quando você olha pra isso, você pensa, sim, definitivamente não foram seis meses.

MARK PHILLIPS: Eu estou tentado a começar fazendo uma pergunta meio espertinha, que é, qual parte de ganhar milhões de libras ao trazer Harry Potter para o palco mais te atraiu?

J.K. ROWLING: Michael Jackson queria que eu fosse para o Neverland e falar sobre um musical de Harry Potter. E eu não queria fazer isso. Não, de verdade eu não queria que Harry fosse para o palco. Eu não queria um musical. Eu senti que tinha terminado.

MARK PHILLIPS: Com Harry?

J.K. ROWLING: Eu acho que eu senti, que se um dia eu me sentisse muito inspirada, eu voltaria sem dúvidas para aquele mundo. Eu sempre dizia para nunca dizer nunca, porque eu sabia que a Warner Brothers queria fazer algo com Animais Fantásticos, e eu tinha um pouco de vontade de fazer aquilo. Mas sabe, eu não estava com pressa. E a verdade é que não foi até que [a produtora teatral] Sonia Friedman veio me ver para falar sobre a possibilidade de fazer algo no palco que eu comecei a pensar “Ok, o que você está propondo é algo que eu poderia estar animada, criativamente falando”. Porque pra responder sua pergunta de forma igualmente direta, todos sabemos que não preciso do dinheiro. A vida é muito curta. Eu só quero fazer coisas que eu aproveito, ou que eu acho que são boas ou que valem a pena fazer.

MARK PHILLIPS: Mas além de Michael Jackson, especificamente sobre a ideia de trazer para o palco — isso é algo que todos sabemos que famosamente apareceu totalmente formado em sua cabeça e que se tornou nos livros e aquilo — não?

J.K. ROWLING: Não. As pessoas exageram um pouco. Eu também disse que diria é um pouco de exagero dizer que todos os sete livros apareceram prontos em minha mente. A premissa de um jovem que não sabia que era bruxo e ia para uma escola de magia, isso sim veio completo em minha mente.

MARK PHILLIPS: Certo. E famosamente você também escreveu o último capítulo antes de escrever os outros.

J.K. ROWLING: Sim, eu realmente escrevi aquele capítulo mais cedo, sim.

MARK PHILLIPS: Mas o que o teatro guardava pra você como prospecto? Foi apenas o desafio de fazer essas ideias funcionarem ao vivo ao invés de na imaginação ou com a ajuda cinematográfica [de efeitos especiais] que você achou interessante?

J.K. ROWLING: Pra ser honesta, foi a ideia de trabalhar com esses dois. Porque Sonia e Colin [Callender], nossos produtores, estavam me oferecendo a chance de trabalhar com duas pessoas que eu achava serem extraordinárias. E eu me senti confiante desde nossa primeira reunião que nós podíamos fazer algo realmente especial acontecer. Agora, eu poderia estar errada. Ainda assim nos divertimos muito fazendo isso, porque terminamos sendo muito bons amigos, e isso é uma coisa incrível, arranjar dois amigos muito bons de um processo criativo como esse. Mas também acontece de que nós três trabalhamos muito, muito bem juntos, e eu acho que produzimos algo que estamos todos muito orgulhosos.

MARK PHILLIPS: Foi a ideia de levar a história adiante? Eu sei que a corda está em nossos pescoços se falarmos sobre a história, então não iremos, mas a ideia de continuar a história, gerações adiante, isso foi algo que lhe atraiu?
Isso foi parte do desafio que você sentiu intelectualmente?

J.K. ROWLING: Bem, eu já disse publicamente que o personagem que eu estava mais interessada em continuar era Albus (Potter). E ele era certamente o personagem em quem eu mais pensei. O filho que, claramente, como você vê no último capítulo da série, vai para Hogwarts com um senso de ser afogado pela história de sua família. Isso foi o ponto de partida, sim.

Gostaríamos de proteger tanto do trabalho quanto pudermos, porque gostaríamos que as plateias tenham a experiência que tantas pessoas em Londres puderam ter. É por isso que não gostaríamos de compartilhar muito.

MARK PHILLIPS: Certo. Todos juramos segredos até certo ponto. Sei que estamos aqui sob perigo de exílio se falarmos sobre a história, mas o que vocês podem nos contar? É a continuação do fim do último livro?

JACK THORNE: Não vou responder essa. (RISOS)

JOHN TIFFANY: A primeira cena de nossa peça é o último capítulo de “Relíquias da Morte”, então vemos Harry, Gina, Alvo, o filho do meio de Harry, na estação King’s Cross, assim como Rony, Hermione e sua filha, Rosa. E assim como no último capítulo, os Malfoy também estão por ali, não estão, também. E eles estão mandando Alvo e Rosa para seu primeiro dia em Hogwarts.

Tiago é o filho mais velho, o primeiro de Harry e Gina. Ele já esteve em Hogwarts. Mas vemos Alvo. Alvo, sendo o personagem que, como Jo disse mais cedo, ela estava mais interessada, porque o nome dele é Alvo Severo, em homenagem a Alvo Dumbledore e Severo Snape, dois dos personagens mais amados dos livros.

JACK THORNE: E dos mais complicados.

J.K. ROWLING: E dos mais odiados, também. Sim.

JOHN TIFFANY: Enquanto Tiago, fazendo jus ao sobrenome do avô, não teve nenhuma dificuldade enquanto em Hogwarts, Alvo, como o nome lindamente sugere, não vai ter tanta facilidade. Então está tudo ali. Então, essa é a primeira cena. Então pulamos quatro anos, e os vemos de novo no começo do quarto ano.

JOHN TIFFANY: E é aí que a história realmente começa a acontecer e tomar forma e as coisas ficam muito complicadas, muito rápido.

MARK PHILLIPS: Sabe, feitiços podem acontecer nos filmes. Os feitiços podem acontecer nos livros. Mas fazer feitiços acontecer no palco é uma coisa completamente diferente, como eles dizem.

JOHN TIFFANY: Sim, quero dizer, Sonia e Colin vieram falar comigo, e eles me disseram que eles haviam se encontrado com Jo, e Jo havia dado permissão para continuar com a ideia de colocar Harry no palco e explorar a fase adulta de Harry, e especificamente olhar para o que aconteceu com alguém que teve a infância que Harry teve, e como ele se tornou um pai.

Quero dizer, eu amei os livros e os filmes e era um grande fã de Jo, eu os li para meus afilhados e meus sobrinhos, e havia visto o poder absoluto que eles têm para transportar crianças e dar a elas um senso de pertencimento, em vários sentidos. E também eu comecei minha vida profissional em Edimburgo, que é onde Jo estava na época.

J.K. ROWLING: E nós nos conhecemos.

MARK PHILLIPS:: Vocês se conheceram lá?

JOHN TIFFANY: Eu era diretor assistente no Traverse Theatre, sim.

J.K. ROWLING: Que tinha uma cafeteria esplendorosa onde eu costumava escrever. E ele estava lá. E quando nós nos conhecemos formalmente para esse projeto e explorar se íamos seguir em frente ou não, eu achei que ele se parecia estranhamente familiar. E acontece que nós havíamos nos conhecido anos e anos antes em Edimburgo. Isso foi, sim, antes da publicação.

JOHN TIFFANY: Sim, Jo ficava lá com um carrinho de bebê, cuidando de um cappuccino.

MARK PHILLIPS: Naquela época, você não sabia que ela ia ser J.K.

JOHN TIFFANY: Não, só um ano depois.

J.K. ROWLING: Não, ele era muito doce comigo, entretanto. Deixando me sentar lá por anos com um café.

JOHN TIFFANY: Sim, você ficava falando “Você se importa de eu ficar aqui?” e eu ficava tipo “Claro que não”. Você estava escrevendo. E então, um ano depois, “Pedra Filosofal” foi lançado. E ela não aparecia mais tanto assim no café depois disso. Você não estava muito em lugar nenhum depois daquilo, né?

J.K. ROWLING: Sim, eu ainda ficava em cafeterias até ser expulsa.

JOHN TIFFANY: Então Sonia e Colin vieram falar comigo, eu pensei “Uau, isso é uma pergunta e tanto, de certa maneira. É tão amado”. E também, aquele mundo foi tão lindamente explorado em filme, visualmente. Mas ao mesmo tempo, havia uma pequena coisa em minha mente, eu estava muito, muito animado sobre a ideia de como poderíamos usar a teatralidade para contar essas histórias.

Que uma história de capas e maletas e truques de mão potencialmente podia ficar muito bonita no palco, eu esperava. E eu sabia que, se seguíssemos adiante, que um grande número de nosso público iria ao teatro pela primeira vez e isso era uma oportunidade para mostrar o teatro para eles.

MARK PHILLIPS: Mas parte dessa expectativa também assustava? Eu teria pensado que sim. Porque essas crianças teriam visto os filmes onde os truques e a execução dos feitiços e o voo e tudo mais havia sido vividamente apresentado.

J.K. ROWLING: Eu tinha total fé de que John poderia fazer algo incrível. Mas eu acho que nesse ponto da minha vida, eu não vejo por que fazer algo que não seja um pouco assustado. Sabe, seria muito fácil fazer exatamente a mesma coisa — as pessoas gostam, continue fazendo a mesma coisa até que eles parem de gostar. E eu só estou interessada em fazer coisas que eu ache que sejam satisfatórias ou animadoras ou desafiadoras. As expectativas sempre estarão muito altas agora.

MARK PHILLIPS: Você está dizendo que você mesma aumenta as expectativas.

J.K. ROWLING: Bem, há riscos que vem junto. Mas então você não consegue a satisfação criativa se não arriscar. Claro que haveriam pessoas que não gostaram do que fazemos, que estavam irritadas. Quando você tem um fandom como o de Potter, eles são passionais, e isso é uma coisa muito, muito bonita.

Com isso vem as altas expectativas, e certas vezes as pessoas não gostam do que você vai fazer. Eu não consigo falar o quanto eu gostei de fazer isso. Eu amei do começo ao fim. E eu estou muito orgulhosa do que John disse sobre trazer pessoas ao teatro pela primeira vez através de Potter. Sabemos que 60% de nosso público nunca havia ido a uma peça antes. E também sabemos que 15% continuam e vão para outros espetáculos. Era sobre dizer, sobretudo para os mais jovens “esse não é um espaço estranho”. Nós três fomos educados em escolas estaduais. Nós não viemos de famílias que vão naturalmente ao teatro. E sentimentos paixão, isso é um jeito de pegar o que é geralmente percebido como um espaço de elite, o teatro — como se vestir? Como se comportar? Teatro ao vivo é muito assustado — e arrombar as portas para todos. Nós fomos com esse espírito, não foi?

JOHN THORNE: Muito, sim.

MARK PHILLIPS: Qual é a capacidade? 1.200 pessoas ou algo assim. Comparado com o elemento de mídia de massa que os livros e os filmes têm, esse ainda é um espaço pequeno e um público pequeno. Isso pesou em converter as ideias para uma peça de teatro?

JOHN TIFFANY: Bem, sabe, é isso que o teatro é. Teatro é um grupo de pessoas que sentam e assistem uma história contada por atores. Sabemos que haveria uma grande demanda por ingressos, por causa dos fãs. Mas também sabíamos que, se fizesse sucesso, poderíamos falar rapidamente sobre levar a peça para outros países, assim como estamos falando agora sobre levá-la para a Broadway, o que nos anima muito, né?

J.K. ROWLING: Sim, demais.

JOHN TIFFANY: Enquanto progredimos com as ideias para a história, e nós três nos encontramos e começamos a falar sobre, sabe, a história que “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada” iria contar, ficou claro para mim que nós íamos fazer algo bem único, no sentido de que estavámos levando um grupo de personagens que o público já havia visto por sete livros e oito filmes, e nós íamos contar uma história com esses personagens. E então têm sido uma grande honra, não foi, sentar na plateia desde as primeiras apresentações, ver as pessoas entrarem, conhecendo esses personagens e ainda assim não sabendo o que ia acontecer com eles. E os suspiros! É exatamente a razão de eu ter me tornado um diretor de teatro — você quer que as pessoas suspirem e façam barulho e se unifiquem como plateia assistindo uma história. E isso foi uma benção.

J.K. ROWLING: Não, foi uma maravilha.

MARK PHILLIPS: Você teve medo, entretanto, de que elas pudessem não gostar?

J.K. ROWLING: Claro. Nossa, sim. Claro. Eu não acho que qualquer tipo de pessoa criativa viva não entenderia como todos nos sentimos indo para aquela primeira prévia. Acho que nós três, concordam? Sentíamos que havíamos feito o melhor que podíamos. Estavámos orgulhosos. Achamos que havíamos feito um bom trabalho. Mas, sabe, éramos só três de
nós.

E isso é algo sobre o teatro, porque é uma experiência visceral. E eu estava sentada num camarote para ver uma das primeiras prévias. E a atmosfera era–

JACK THORNE: Ridícula.

J.K. ROWLING: Não era?

MARK PHILLIPS: Mas o peso da expectativa, eu teria pensado—

J.K. ROWLING: Sim, exatamente, é o peso da expectativa. Você sabe que as pessoas estão vindo com um grande número de ideias pré-concebidas. Você sabe que algumas pessoas estão pensando “Talvez eles fizeram tudo nas coxas. Talvez eles só estejam tentando tirar mais uma grana da franquia”. E nós sabíamos que era algo muito novo e diferente. Mas a prova e quando o público assiste.

E, honestamente, eu acho que nos sentimos do mesmo jeito indo para a Broadway. Não vamos para a Broadway pensando “Oh, vai ser tão fácil”. Nós vamos para a Broadway com esse pensamento “Ok, vamos ver o que acontece”. Você não sabe. Não há nenhuma certeza. Você não tem nenhuma garantia. É a Broadway, sabe? Nós temos, eu acho, um bom tanto saudável de medo.

MARK PHILLIPS: Teve algum ponto em que você sentiu que o público estava se rebelando, seu público se rebela contra o que você está fazendo?

J.K. ROWLING: Nossa, sim.

MARK PHILLIPS: Houve?

J.K. ROWLING: Por favor. Essa é a era das mídias sociais. Você acha que não me dizem sem nenhuma delicadeza que eu fiz o que eles não queriam que acontecesse com um personagem ou por que diabos estou fazendo uma peça? Não, acredite, na era das mídias sociais, ninguém consegue esquecer do fato que algumas pessoas não estão felizes, torcendo para não estarem satisfeitas. É assim que acontece.

MARK PHILLIPS: Você se importa com o que o público diz?

J.K. ROWLING: Se eu me importo? Sabe, vou ser muito honesta. Sim, eu me importo. E não, não me importo.

Então sim, eu me importo. Claro que eu me importo. Para mim, eu sempre volto para os leitores. O fato de que as pessoas amam os livros, e os filmes também, e que essas histórias significam tanto para tantas pessoas, isso é tudo para mim. Nenhum escritor vai te dizer outra coisa. Eu tenho um amor e um respeito fenomenal por essas pessoas. Esqueça o lado material; eles me deram algo para fazer parte, na verdade, e um propósito que não tenho certeza se tinha antes. Acabou que eu podia contar uma história. Isso é tudo o que eu sempre quis na minha vida. E eles, em seu entusiasmo, me deram isso. Então sim, eu me importo muito.

Já no lado do “não me importo”, eu acho que como uma escritora ou qualquer tipo de pessoa criativa, você tem que proteger sua visão. E, no final das contas, você tem que ser capaz de olhar no espelho e dizer “Eu fiz isso pelos motivos certos? Eu fiz isso com o melhor das minhas habilidades? Estou feliz com o resultado?”

MARK PHILLIPS: Você tinha medo de que pudesse estar enrolando?

J.K. ROWLING; Bem, eu sei que nunca vou enrolar. Eu sei, de verdade, com toda consciência, que tenho um tempo limitado na Terra. Eu não tenho nenhum interesse em fazer certas coisas que eu sei que poderiam ser muito populares com o fandom. E eu acho que o fandom, assistindo isso, saberá exatamente do que estou falando, porque eles sabem o que eles têm me pedido. Mas não há nada criativamente ali para mim, muito embora eu sei que eles iriam comprar.

MARK PHILLIPS: Posso perguntar que tipo–

J.K. ROWLING: Eu não vou entrar em detalhes.

MARK PHILLIPS: — de coisas eles querem? Por favor.

J.K. ROWLING: Eu não vou entrar em detalhes. Não vou. Não. Não vou dizer. Porque meu feed no twitter seria um inferno por três meses se eu dissesse, então não vou dizer. Mas há certas coisas que eu sei que poderia escrever, e simplesmente, nós venderíamos milhões. Tem que me animar, e isso não me anima. Então sim. Eu me importo? Sim, passionalmente e não, porque no fim das contas eu tenho que fazer o que me fortalece.

MARK PHILLIPS: A mecânica de escrever Potter para o teatro é diferente de escrever para os livros ou roteiros?

JACK THORNE: Sim, e em relação à sua pergunta anterior, eu sou um fã dos livros. Ridiculamente fã dos livros. E eu me consideraria um Potterhead. E em termos da pergunta que você não vai responder sobre o que os fãs gostaria de —

J.K. ROWLING: Shh. Não diga. Não diga–

JACK THORNE: Sabe, há uma parte de mim que fica “Ah, por favor”.

J.K. ROWLING: Por favor, não.

JACK THORNE: E isso fez tudo ser mais aterrorizante da minha perspectiva, porque se você é a pessoa que fica conhecida por arruinar Harry Potter, então o auto-ódio é incapacitante. Mas em termos da mecânica de escrever para o palco, sim, em certos pontos. Eu trabalhei com John um grande número de vezes. E nosso jeito de trabalhar sempre foi escrever e tentar.

E então eu não escrevi pensando “Ok, estou limitado pelo palco”. Eu escrevi pensando “Não estou limitado, porque John Tiffany e Steven Hoggett [diretor de movimento] estão esperando no fim da jornada. E se eu escrever magia no roteiro, eles vão tentar e achar um jeito de dar certo. Eu acho que só havia uma regra.

MARK PHILLIPS: Qual era a regra?

JOHN TIFFANY: Um certo jogo que aparece no mundo de Harry Potter. Eu fiquei tipo “Eu não vou fazer isso”.

J.K. ROWLING: “Eu não vou fazer isso”. Eu estava tão ok com você não fazer aquilo.

MARK PHILLIPS: Não vai fazer as crianças voarem? Ok.

JOHN TIFFANY: Sim, você estava aliviada, eu me lembro.

J.K. ROWLING: Realmente aliviada.

MARK PHILLIPS: Eu fiquei um pouco feliz que não aconteceu.

JACK THORNE: Mas além disso não havia barreiras, tente de tudo. E há obviamente diferentes jeitos de escrever peças e roteiros em termos de duração das cenas e todo tipo de coisa chata. Mas eu acho que nós estávamos determinados desde o começo a não nos limitarmos pelo fato desse ser nosso espaço.

E John dizia todo tempo que “Os filmes têm efeitos especiais. Nós temos a imaginação coletiva de nosso público. Então se pudermos criar algo que os leva nessa jornada, eles irão conosco”. E isso era a coisa mais animadora. Sabe, eu voltei para assistir umas semanas atrás. Apenas sentei sozinho na plateia, e apenas a experiência de sentar do lado de duas pessoas por todo aquele tempo, nenhuma das quais eu conhecia, e ir nessa incrível jornada com elas, eu sempre achei emocionante e sempre animador e tremendo, na verdade.

MARK PHILLIPS: Eu ia perguntar sobre como a narrativa conjunta tomou forma. E eu vou segurar isso por um momento. Você usou a frase “todo aquele tempo”. É muito tempo.

JACK THORNE: Sim. Você passa um dia conosco. E isso é meio maravilhoso.

MARK PHILLIPS: Parece todo um, eu não sei, mini recesso de fim de semana, alguém disse.

JACK THORNE: E ficou assim porque nós trabalhamos juntos nesse documento que eu escrevi, que era nossos pensamentos coletivos sobre o que a história deveria ser. E sentamos no final daquilo e ficamos “É um documento muito grande”. E a coisa maravilhosa dos livros é que você passa tanto tempo com eles fazendo coisas normais, como o papel que a comida tem nesses livros; você divide esses banquetes com eles por todo o caminho.

E nós podíamos ter corrido e enfiado tanta história quanto possível numa experiência teatral de duas horas e meia e isso não faria jus a Harry Potter. E não teria nos dado nenhuma chance de passar tempo com esses personagens, e passar tempo onde todos eles tão e porque estão ali.

MARK PHILLIPS: Mas é possível dar demais aos fãs de Harry Potter? Ou eles vão sugar tudo o que vocês oferecerem para eles — porque parar em duas apresentações? Podia ter continuado uma semana inteira.

J.K. ROWLING: Só porque — disse ela como uma mãe — só porque as pessoas querem muito não significa que elas devam ter muito. Só daremos o que for bom para elas. E decidimos que seria assim. E sim, você está totalmente certo.

MARK PHILLIPS: Contanto que elas terminem o que já está no prato.

J.K. ROWLING: Isso. Assim. É muito. É muito tempo para querer que, especialmente um membro mais jovem do público, fique sentado. E eu estou muito, muito, muito orgulhosa de dizer que todos eles voltam para a parte dois parecendo animados e entusiasmados.

JOHN TIFFANY: Quando tivemos a ideia de como a primeira parte iria terminar, o que nós não diremos, obviamente, ficou claro que ela estava nos dizendo “Isso vai ter mais que duas horas e meia. Vai ser um evento de duas partes”. E sabe, eu tive experiências maravilhosas no teatro onde você vai além do que as pessoas pensam que é uma duração apropriada. E você vai para um tempo e espaço diferentes. E o público parece amar fazer isso. Parece que ninguém nos diz que é muito grande.

E romances, eles contam sua história em um número x de páginas. Mas o teatro realmente precisa de muito mais do que isso para contar uma história similar. Então sabíamos que nós íamos ter que espalhar por muito tempo. E Sonia Friedman e Colin Callender, nossos produtores, foram incrivelmente apoiadores disso. Embora para eles, complicaria muito o trabalho deles de vender duas partes–

J.K. ROWLING: Sim, logisticamente foi difícil.

JOHN TIFFANY: Bem, em termos de bilheteria.

JACK THORNE: E nós tivemos que ensaiar duas peças. Então tudo levou o dobro do tempo.

MARK PHILLIPS: As ideias dos livros vieram de você. As ideias para os filmes vieram dos livros. Isso era estenderem a história para o futuro. Quem fez isso. Qual dos três foi mais responsável pela história se passando no futuro?

J.K. ROWLING: O desenvolvimento da história, eu acho, foi bem colaborativo entre nós. Eu, por razões óbvias, tinha o poder de vetar qualquer coisa. Eu podia dizer “Não, isso não aconteceu”. Mas não, fomos nós três. Mas a peça é de Jack. Jack que escreveu. Jack fez o trabalho duro. E eles fez maravilhosamente. E eu não poderia estar mais feliz.

MARK PHILLIPS: Mas você tinha o poder, assim como tinha nos filmes, poder de vetar só porque você sente que ainda é dona do personagem Potter.

J.K. ROWLING: Não era uma questão de ser dona. Eu sei que isso vai parecer muito bizarro. Eu sei que é certo quando eu tenho uma sensação de “Oh, claro, isso aconteceu”. E isso quando nós três estávamos discutindo ideias, um deles dizia “Bem, e que tal—” e eu tinha esse sentimento, “Oh claro, isso aconteceu”. Eu simplesmente sabia.

E algumas vezes seria eu dizendo “Eu acho que isso aconteceu”. E, sem surpresas com minhas próprias ideias, eu definitivamente achei que elas provavelmente foram o que aconteceu. Mas sempre, nós estaríamos sentados tentando refinar alguma coisa, e algum deles diria e eu sabia “Sim, foi assim que aconteceu”. Parecia uma escavação, que é como eu sei que estou no caminho certo, quando eu sinto que estou na verdade descobrindo a história que já está lá.

MARK PHILLIPS: Que foi exatamente o que você sempre disse sobre essa história.

J.K. ROWLING: Exatamente. E eu tive exatamente a mesma experiência. Foi uma das melhores experiências da minha vida, trabalhar com esses dois. Eu amei do começo ao fim.

MARK PHILLIPS: Só porque você podia dividir o fardo? Ou por causa do relacionamento?

J.K. ROWLING: Não por isso, porque sabe, estou escrevendo roteiros agora e é óbvio que é um processo muito mais colaborativo do que escrever um romance. Mas havia algo muito especial sobre estar nesse espaço, num teatro, e trabalhar juntos. E você falou, Jack, sobre a atuação de Paul Thornley e sobre ser Rony.

JACK THORNE: Sim.

J.K. ROWLING: E você disse que sentiu que ele parcialmente te ajudou a escrever esse
personagem.

JACK THORNE: Absolutamente. Nós ficamos seis meses em uma sala com um grupo de atores, e isso é uma das coisas bonitas sobre teatro, que você pode passar tempo com pessoas que vão levar isso pra frente. Então, quando você está criando esses trabalhos, todos se fortalecem. Christine Jones, nossa designer. Steven, o coreógrafo. Sabe, todos tiveram um papel em como essa história foi contada.

Eu sempre digo, John e Steven e eu fizemos algo diferentes juntos, e a coisa irritante sobre ela que minhas cenas preferidas eram sempre os pedaços que o Steven fez, não os pedaços que eu fiz. E há essa parte na segunda metade da parte um — posso dizer como se chama? Ou isso estraga alguma coisa?

MARK PHILLIPS: Vocês vão ter que decidir entre vocês.

JOHN TIFFANY: Você pode descrever sobre o que se trata.

JACK THORNE: Sim, é sobre os dois garotos e como eles estão se estranhando, e eles estão tendo dificuldades com o que eles são na sua relação.

MARK PHILLIPS: Ok. Podemos dizer que eles decaem.

JACK THORNE: Sim. E há essa linda, é chamada de dança da escadaria. E eu tinha escrito palavras para essa parte, e eu acho que foi lá pelo meio do processo de ensaio, acho que você me disse: “Steven contou essa história muito melhor do que você vai. Então podemos deixar as palavras de lado aqui”. E de novo, é minha parte preferida da peça. Então Steven fez isso de novo comigo, em termos de roubar. então eu sento lá toda vez esperando pelas partes dele, ao invés das minhas partes. O que é amável, mas triste.

JOHN TIFFANY: Mas foi incrível o tanto que havia sido semeado lá em “19 Anos Depois”, que é o último capítulo de “Relíquias da Morte”. E nós acabamos de passar pela data real, 1o de setembro de 2017, o que é maravilhoso. Nós tivemos uma comemoração maravilhosa no teatro. Normalmente nós temos 40 ingressos toda semana para alguns dos melhores assentos, muito baratos. E isso foi numa sexta — tivemos 400, então haviam 400 pessoas que estavam lá, várias vestidas em roupas de Hogwarts.

MARK PHILLIPS: Então agora estamos na história—

J.K. ROWLING: Sim, exatamente, mas houve uma brilhante noite onde as pessoas estavam de verdade vendo a ação acontecer no dia em que realmente aconteceu.

MARK PHILLIPS: Essa coisa toda atingiu status de cult?

JOHN THORNE: O que é algo cult?

MARK PHILLIPS: Foi além da literatura infantil, ou mesmo da literatura — a plateia da tarde e da noite em que eu estive lá, estavam num estado de, eu diria, arrebatação silenciosa durante essa coisa. Houveram muitas poucas, como eu havia imaginado que teriam, manifestações durante a peça. A plateia senta e assiste, como se estivessem ouvindo um sermão ou esperando pelas respostas que ela tem ou algo assim. Ela foi além da literatura em algum tipo de congregação cultural mais ampla de alguma forma?

J.K. ROWLING: Acho que quando conheço pessoas que estão nos seus vinte anos, sabe, eles realmente cresceram com os livros. É a geração para a qual os livros significaram algo mais do que histórias. Isso é definitivamente verdade. E eu sei disso porque eu os encontro e conversamos. É um privilégio, um absoluto privilégio. Sou grata e fico impactada e comovida com as histórias que as pessoas me contam sobre, sabe “Isso me fez superar o divórcio dos meus pais”. Ou doenças. “Eu fiquei de cama por seis meses. Ouvi todos os audiobooks”.

E é uma época turbulenta de sua vida. As pessoas realmente se conectam com Potter por sua adolescência. Eles viveram essas histórias em uma época em que Harry, Rony e Hermione estavam passando pela adolescência. E eu empatizo com isso. Embora, eu ache que as coisas que importavam para você nessa época sempre estarão entre as coisas que mais importarão para você; é aquela fase da vida. Você se molda a elas. São parte de você. Eu tive essa experiência com certas coisas e certas pessoas em minha adolescência, então eu entendo. Eu acho que vem daí.

MARK PHILLIPS: Mas as pessoas que agora vem para o teatro, ou que você acha que vão para o teatro na Broadway, são as mesmas pessoas? Ou são filhas das mesmas pessoas?

J.K. ROWLING: As duas coisas. Eu sento num camarote, há um camarote que nunca é vendido para o público porque você pode ver por trás do cenário e ver como as coisas são feitas.

MARK PHILLIPS: Ver os truques.

J.K. ROWLING: Então não importa se eu sentar ali, porque eu já sei como tudo acontece de qualquer jeito. E eu vi a peça umas dez vezes por agora, e eu sempre sento ali. E você tem uma vista maravilhosa do público. E você vê famílias inteiras. Algumas vezes você pode ver quem cresceu com os livros, não pode? Você pode ter pessoas na casa dos vinte anos lá, mas você tem crianças e seus avós que podem ter lido pela primeira vez para eles. E isso é a coisa mais bonita de ver.

MARK PHILLIPS: Mas os livros mantiveram seu impacto para novas gerações que estão chegando? Eu tive filhos que estavam naquela primeira onda de Pottéricos, e ainda estão. As crianças que leram os livros quando eles saíram estão lendo os livros novamente?

J.K. ROWLING: Eu obviamente não posso responder por todas. Eu sei que acontece, porque, novamente, eu encontro com gente que me diz. Então eu acho que a geração Potter certamente quer ler esses livros para seus próprios filhos. Acontece bastante.

JACK THORNE: Meu sobrinho tem dez anos e ele, com certeza, tem uma obsessão.

MARK PHILLIPS: Bem, a questão é, eu acho, se eles sobreviveram ao teste do tempo. Eles com certeza foram um fenômeno cultural através das sete ondas que passaram.

J.K. ROWLING: Eles foram. E esse tempo não vai voltar. Claro que não vai, porque você tinha os livros e os filmes saindo. E eles se tornaram algo enorme que às vezes era — para a criadora — uma experiência bem desconfortável.

MARK PHILLIPS: Como?

J.K. ROWLING: Era muita coisa. Era louco. Eu ficava pensando “Certo, é isso. Agora acabou. Atingimos o limite”. E então ficava maior.

MARK PHILLIPS: Mesmo durante a publicação dos sete livros você pensou “Não dá pra
continuar assim, isso é loucura”?

J.K. ROWLING: Sim, eu pensei. Nada pode te preparar para estar no meio desse tipo de situação. Não há um manual de treinamento que te explica como é isso. E autores infantis geralmente não experimentam isso. Aquilo não foi o que eu previ.

MARK PHILLIPS: Era disso que eu ia falar, porque–

J.K. ROWLING: E olha, eu não quero ser ingrata. Deixa eu só esclarecer.

MARK PHILLIPS: Não é como se você dissesse que é uma coisa ruim.

J.K. ROWLING: Não estou reclamando nem um pouco. Que problema maravilhoso de se ter! Mas estou apenas sendo muito honesta. Às vezes era incrivelmente demais.

MARK PHILLIPS: Mas também, você não previu isso. Eu lembro da vez que nos falamos depois do terceiro livro, você dizendo que todos os autores infantis que conhecia tinham outro emprego para sustentar seus hábitos. E eu acho que você estava na época de não precisar do outro —

J.K. ROWLING: Quando nos falamos em 1999, eu dei aulas até o ano anterior. Sim, eu dei aulas até 1998. Em 1998 em disse para mim “Eu provavelmente posso me dar ao luxo de tirar um ano de folga”. Não porque eu realmente podia me dar ao luxo, mas porque a direção em que as coisas caminhavam pareciam dar conta de me deixar pagar a hipoteca. Sim.

MARK PHILLIPS: Porque você fazia dinheiro todo o tempo.

J.K. ROWLING: Bem, nem isso. Eu senti “Eu provavelmente posso parar de trabalhar por um ano e ver se eu consigo continuar pagando a hipoteca. Mas eu não vou me dizer que vou parar por mais de um ano”, porque de outra forma você começa a não conseguir empregos de professora novamente. Eu não podia ficar tão longe fora da profissão, sabe?

MARK PHILLIPS: Sim, você não queria sair do emprego principal.

J.K. ROWLING: E eu tinha uma filha para sustentar, sim. Se fosse só eu, eu teria morrido de fome num barraco bem feliz.

JACK THORNE: Como isso influenciou a escrita da série? porque se você trabalhava durante o dia, digo, eu tenho vários autores amigos e discutimos isso o tempo todo. Se você tem uma estrutura no seu dia, que é “eu trabalho, e então eu tenho tipo, duas horas pra escrever”, não há uma mudança extrema? E a pressão em você mesmo, quando você não tem nada para fazer com seu dia, pode ser enorme, certo?

J.K. ROWLING: Oh, céus, não. Eu amei.

JACK THORNE: Certo, então. Então parecia com liberdade?

J.K. ROWLING: Completamente.

JACK THORNE: Certo, certo.

J.K. ROWLING: Em 98, eu era professora substituta. Então eu não dava aulas todo dia.

JACK THORNE: Certo, entendi.

J.K. ROWLING: Então eu decidi “Certo, eu vou parar um pouco e ver como eu me saio, mas eu não posso ficar sem ensinar por muito tempo”. Eu nunca tive problema em preencher meu dia escrevendo. É como gás; vai expandir para encher o espaço disponível.

MARK PHILLIPS: Houve um ponto de sua vida onde você percebeu “Toda minha vida é diferente do que eu achei que seria”? “Há cavalos puxando essa carruagem que eu não mais controlo completamente”?

J.K. ROWLING: Acho que assim foi toda minha vida, na verdade! (RISOS) Eu não acho que houve um ponto em que me senti completamente no controle. Sim, com Potter, provavelmente houve, pela época em que te conheci. E as duas coisas não estão relacionadas.

MARK PHILLIPS: Não?

J.K. ROWLING: Lá por 99 eu acho que eu estava começando a perceber que isso não iria embora. E de novo, isso parece muito ingrato. Eu não queria que os livros não vendessem. Eu estava tão feliz que podia trabalhar em tempo integral. Curiosamente, “Azkaban” foi um dos mais prazerosos de escrever porque a pressão realmente havia saído de cima de mim. Nós ainda não tínhamos rios de dinheiro mas eu sabia que podia pagar as contas. Eu sabia que não precisava correr para voltar a ensinar, e nós conseguimos comprar nossa própria casa, que era uma casa muito modesta no meio de Edimburgo, mas era nossa. E eu nunca tinha tido uma casa antes. Então pela época de “Azkaban”, eu me lembro de pensar “Oh, ok. Vamos parar. Respirar. Tudo bem. Podemos lidar com isso”. E então tudo virou uma loucura, porque os filmes haviam começado. E “Cálice de Fogo”, eu lembro que foi absolutamente insano. Lá por 2000, tudo ficou maior e mais louco.

MARK PHILLIPS: Foi por aí que as crianças começam a fazer fila durante a noite anterior para comprar os livros?

J.K. ROWLING: Eles fizeram um pouco com “Azkaban”, mas ainda não tinha virado uma loucura. Então, eu acho que foi por volta de 2000. Eu definitivamente senti “Eu não previ isso. Agora isso virou loucura”.

MARK PHILLIPS: Eu digo, muito aconteceu na sua vida, obviamente, desde então, de maneira pessoal. Porque tudo ficou tão grande, você teve problemas em balancear tudo em algum ponto? Ou a independência que o sucesso lhe deu te permitiu ser mais você mesma na segunda metade de todo o fenômeno “Potter”, em termos de publicação?

J.K. ROWLING: Isso na verdade nos leva diretamente ao território da peça. (risos) Porque isso é Harry Potter tendo dificuldades —

MARK PHILLIPS: Você se torna seu personagem? (RISOS)

J.K. ROWLING: Bem, ele tem alguns problemas de um jeito meio lidando-com-o-passado.

JACK THORNE: Uma das questões no começo desse processo foi “como seria ser o filho de Nelson Mandela?”

J.K. ROWLING: Bem, e meus filhos certamente não se sentiam como os filhos de Nelson Mandela (RISOS). Só esclarecendo. Só quero esclarecer.

MARK PHILLIPS: O filho de alguém famoso ou algo assim?

JACK THORNE: Bem, não só alguém famoso, mas alguém que salvou o mundo. O que é diferente de só ser famoso. Então, Harry é visto como um salvador, então ser o filho dessa pessoa, e então tentar achar seu próprio caminho no mundo.

J.K. ROWLING: Eu acho que pessoalmente me sinto muito liberada agora. Eu gosto de fazer coisas que me assustam. Eu acho que por um longo tempo, eu me escondi disso. E agora eu só quero ser eu, e eu quero fazer as coisas que quero. Harry, de certas maneiras, é a imagem negativa disso. Nunca o deixaram se esconder. E na nossa peça, nós o vemos tentando achar um espaço privado.

MARK PHILLIPS: Então, é difícil de falar sobre quando você não pode falar sobre (RISOS).

J.K. ROWLING: Bem, você pode falar sobre os temas.

MARK PHILLIPS: Tudo bem. Um dos temas era, e de novo, lembrando da outra conversa na época, eu lembro de você dizer: “Nunca houve uma criança que não olhou para seus pais e pensou “Como é que eu acabei tendo esses pais?”

J.K. ROWLING: Uh-huh.

MARK PHILLIPS: E há algo daquilo nisso, também?

J.K. ROWLING: Nossa. Demais. É o centro. Jack escreveu essa fala brilhante sobre “Achamos que ser pai é o trabalho mais difícil, mas nós esquecemos que crescer é o trabalho mais difícil”. E durante a escrita da peça, Jack virou pai pela primeira vez. (RISOS) Você ainda acredita nisso, Jack?

JACK THORNE: Eu não sei. (RISOS)

J.K. ROWLING: Eu achei que era uma fala tão genial, porque eu acho que há tanta verdade nela. E parte da razão pela qual ser pai é difícil é o que você lembra e o que você esqueceu sobre crescer.

JACK THORNE: E eu passei toda minha vida, naquele momento, petrificado do que ele vai ser quando ele tiver 15 anos. Porque eu era um adolescente péssimo. E eu estou tão preocupado de dá-lo o meu fardo. (RISOS)

J.K. ROWLING: Isso é tão a peça.

JACK THORNE: Exatamente, exatamente. Mas você sabe, a peça refogou à sua essência em como alguém que não teve um pai aprende a ser um pai?

JOHN TIFFANY: Ou pais.

JACK THORNE: Sim. Sim. É.

JOHN TIFFANY: Sim, e uma das melhores experiências foi encontrar com o público e as pessoas que estão descobrindo o trabalho de Jo pela primeira vez e o mundo de Harry, e os que tinham 11 anos quando o primeiro livro foi lançado e que meio que viveram por todos esses anos com Harry, Rony e Hermione. E é uma honra, de verdade. Digo, eu não conheço nenhuma criança de 11 anos, não importa quão feliz, que não pensa que está na vida errada e que está esperando uma coruja aparecer com uma carta para dizer “Sentimos muito. Você está na vida errada (RISOS). Você realmente precisa ir para essa escola na Escócia e aprender a ser um bruxo”, e então você vai e acha sua comunidade, seu pessoal.
O que eu percebi é que as pessoas absorvem esses personagens e esse mundo, e ele se torna parte de sua vida emocional.

J.K. ROWLING: Yep.

JOHN TIFFANY: E um jeito de seguir em frente, e isso não significa que eles estão mais deprimidos ou infelizes com suas família, etc. É só que crescer é muito, muito difícil. E nós precisamos levar esses personagens para a vida adulta.

J.K. ROWLING: Sim.

JOHN TIFFANY: E então nós vemos o público vir e experimentar isso, e tem sido uma maravilha total. E nós não podemos esperar para ir na próxima jornada disso, que é levar a peça para Nova York.

MARK PHILLIPS: E a jornada continua além disso? Esse é o fim?

J.K. ROWLING: Não haverá um — digo (RISOS) não. É isso. Harry não estará em nenhuma outra peça. Foi isso. “Cursed Child” é o fim. Eu não poderia estar mais feliz com ela. Nós não poderíamos fazer isso novamente. Nada poderia se igualar. Se ninguém mais amá-la, nos a amamos, não é? Nós amamos. (RISOS)

MARK PHILLIPS: Vocês tiveram bons momentos?

J.K. ROWLING: Sim, tivemos.

MARK PHILLIPS: Mas esse não é o começo de uma coisa totalmente nova?

J.K. ROWLING: A história de Harry agora, acabei. Eu acabei. Eu precisei ser convencida de fazer “19 anos depois” e estou muito feliz de ter sido convencida, porque estou tão orgulhosa dessa peça. Mas não, não veremos o filho de Alvo ir para Hogwarts. Bem, não enquanto eu puder negar. (RISOS) Daqui 100 anos vou voltar e assombrar quem fizer isso.

Mas se quiserem, adoraríamos levar isso para vários lugares, porque sabemos que há pessoas em lugares bem distantes que estão dizendo “Não posso ir lá. Não posso ir até Londres”. Então adoraríamos mostrar a peça para o maior número de pessoas possível, sim.

MARK PHILLIPS: Você diz que não consegue viver sem o desafio? Você não está interessada a menos que haja um desafio?

J.K. ROWLING: Uh-huh.

MARK PHILLIPS: E você fez mais alguma coisa além de Harry? Eu quero falar rapidamente sobre isso, se puder. Há uma gentil ironia interessante na sua carreira, que você famosamente escolheu ser conhecida por suas iniciais, para que não pensassem que você era uma mulher no começo de tudo?

J.K. ROWLING: Bem, eu disse, foi na verdade a escolha da minha editora. E eu estava tão feliz de ser publicada, eles poderiam ter me chamado de Prince (RISOS). Digo, eles poderiam ter me chamado de qualquer coisa que quisessem e eu teria dito “É. Certo. Que seja, só publique o livro”.

MARK PHILLIPS: E quem sabe qual efeito mudar o nome ou usar as inciais —

J.K. ROWLING: Bem, na verdade, pensando melhor, eu acho que não fez nenhuma diferença, porque três meses depois da publicação eu ganhei um prêmio e saí nos jornais. Daí em diante, eu não acho que conheci nenhuma vez alguém que dissesse “Achei que você era um homem”. Então, que seja. Mas eu não me importo. Eu até gosto de ser J.K.

MARK PHILLIPS: Certo, mas recentemente, você escreveu como um homem?

J.K. ROWLING: Escrevi, sim. Escrevo.

MARK PHILLIPS: Como assim?

J.K. ROWLING: Bem, com os livros de Robert Galbraith, eu queria voltar ao início, e eu tive uma ideia de uma série, tendo dito que eu nunca faria outra série. Então, isso foi uma mentira cabeluda (RISOS). Mas eu sempre quis escrever romances de detetive. E eu queria voltar ao começo, queria mandar como um manuscrito não solicitado e queria respostas honestas, e queria passar por tudo aquilo de novo, então foi o que eu fiz.

MARK PHILLIPS: Por quê?

J.K. ROWLING: Sabe, eu não sou idiota. (RISOS) Eu tenho plena ciência que eu poderia escrever um livro bem ruim de detetive e as pessoas provavelmente diriam “Bem, sabe, provavelmente vai vender algumas cópias por causa do nome dela”, e não era assim que eu queria fazer. Eu queria merecer. Então, sim. Foi assim que eu fiz. E foi ótimo.

MARK PHILLIPS: Não foi como se você tivesse alguma dúvida se você podia escrever? Acho que o júri veio nessa?

J.K. ROWLING: Sim, mas é um gênero diferente, não é? Você é uma pessoa arrogante se você acha que porque você pode fazer uma coisa, você pode fazer tudo. Eu não sou essa pessoa. Eu amei escrever os livros de “Strike”, então o fiz. Eu consegui uma oferta de alguém que não sabia que era eu.

E, na verdade, nós tivemos algumas pessoas interessadas nela. E a BBC queria se encontrar comigo, sem saber que era eu. Eles queriam se encontrar com “Robert”, o que foi maravilhoso, só que eu não podia ir na reunião (RISOS) porque eu claramente não sou “Robert”. Então as coisas estavam ficando meio complicadas quando minha máscara caiu.

MARK PHILLIPS: Mas há uma história de que o livro vendeu bem, e então quando se tornou público que você era quem era, ka-boom, as vendas decolaram?

J.K. ROWLING: Claro.

MARK PHILLIPS: Indo além, se você não vai mais fazer Potter, pra onde a Jo vai daqui, acho que é a pergunta?

J.K. ROWLING: Bem, eu definitivamente tenho mais livros de Strike em mim. Eu tenho outro livro infantil que será lançado em algum momento. Eu planejo continuar escrevendo esses roteiros, porque estou realmente gostando. E eu tenho algumas outras ideias, então sim, eu tenho várias coisas pra fazer.

Traduzido por: Rodrigo Cavalheiro

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Categorias: Entrevistas, Filmes e Peças, Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, JK Rowling
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