Sorte líquida nos tempos líquidos

//Por Pedro Martins - sábado, 16 de setembro de 2017 às 15:09

Alguém aí está precisando de sorte? É sábado, e é natural que neste dia vejamos o mundo sob lentes mais suaves e coloridas. No entanto, às vezes a vida nos cobra pesado e um pouquinho de Felix Felicis não seria nada mau, não é mesmo?

A sorte é justamente o tema abordado na coluna de hoje, o texto de estreia da nossa nova colunista Alícia Maredi. Sabemos que, na série, o consumo de Felix Felicis é limitado, porém cabe questionar se, para além do universo mágico, uma vida construída à base de facilidades é desejável. Você vai se sentir um sortudo por ler este texto!

Por Alícia Marédi

“É uma poçãozinha engraçada, a Felix Felicis. Dificílima de fazer e catastrófica se errarmos”, explicou Slughorn. “Contudo, se a prepararmos corretamente, como no caso, vocês vão descobrir que seus esforços serão recompensados… pelo menos até passar o efeito.”

“Por que as pessoas não a bebem o tempo todo, senhor?”, perguntou Terêncio Boot, pressuroso.

Não é exagero acreditar que a esmagadora maioria dos fãs de Harry Potter, ao fazer a leitura de O Enigma do Príncipe, desejou possuir um estoque infinito de Felix Felicis em casa. Até mesmo pessoas com poderes mágicos são atraídas pela palavra “sorte”, e isso se torna evidente já na primeira aula do professor Horácio Slughorn, que ganhou atenção total dos alunos ao mencionar a função do líquido cor-de-ouro.

Uma garrafinha minúscula pode proporcionar até doze horas de absoluto sucesso em todas as tarefas que um bruxo pretende realizar, na medida do possível. Tal perspectiva é tentadora para qualquer um, e o próprio Harry, após adquirir o frasco como prêmio por sair-se bem-sucedido na aula de poções, sentiu-se persuadido a ingerir seu conteúdo em diversas ocasiões, inclusive quando pretendia chamar Gina Weasley para sair sem precisar enfrentar a fúria de um Rony possessivo.

A pergunta de Terêncio Boot, aluno da Corvinal, levanta um questionamento importantíssimo nos livros e filmes de Harry Potter. Afinal, o que aconteceria se todos tivessem acesso a essa milagrosa poção sempre que desejassem?

Podemos supor que alguns alunos de Hogwarts recorreriam a ela para obter pelo menos um “Excede Expectativas” nos N.O.M.s e N.I.E.M.s. Outros nem mesmo se importariam com aprovação estudantil, mas sim com as disputas nos jogos de Quadribol. Acontece que seu uso é proibido em competições oficiais, eventos esportivos, exames e eleições. Além disso, é extremamente tóxica se ingerida em quantidade elevada, causando tonturas, irresponsabilidade e um perigoso excesso de confiança.

Certamente, se seu consumo fosse permitido sob qualquer circunstância e não oferecesse riscos a quem vai com sede ao frasco, é de se presumir que uma catástrofe se estabeleceria no Mundo Bruxo. Se as gotas douradas da poção fossem consumidas unicamente por causas nobres ou razões tidas como inocentes, seria tranquilamente aceitável. Contudo, esse é um pensamento bastante idealizado. Quando se leva em consideração todas as Guerras Bruxas, a magia das trevas e a segregação que mancham as páginas da história da magia, concluímos que a liberação de uma das poções mais perigosas poderia cair como uma luva em mãos erradas, trazendo consequências mais danosas do que as já vivenciadas ao longo da saga.

A crítica em questão não se restringe aos bruxos das trevas que aspiram sorte em seus grandes e terríveis feitos. Veja bem, burlar um sistema de provas não é tão inocente assim. É antiético e moralmente duvidoso, além de trazer como consequência futuros profissionais não-qualificados. Basta imaginar um curandeiro do Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos que se graduou, literalmente, na sorte. A visão não é muito agradável, e a falta de ossos no braço com certeza seria o menor dos problemas.

O que esse possível caos nos ensina é que para construir uma sociedade que funcione na prática, é necessário, no mínimo, esforço e coragem. Ora, se a própria Felix Felicis precisa cozinhar seis meses em fogo lento para ser produzida, isso significa que nem mesmo magia e bruxaria absolvem dos seres humanos a necessidade de paciência e dedicação em suas atividades cotidianas. Mas por que coragem? Para se lançar numa jornada repleta de desafios, sem possuir clarividência para visualizar os resultados, é preciso uma ousadia interior inimaginável.

Também é possível tirar lições valiosas sobre esse elemento tão popular entre os fãs ao fazer uma comparação com a vida real. J.K. Rowling nos instruiu muito sobre persistência em seus livros, mas a oportunidade de conseguir tudo com poucas gotas de poção ainda parece irresistível para muita gente. No entanto, é necessário muito mais do que algumas doses de sorte para que a glória eterna seja alcançada; sem determinação, audácia e perseverança, é de fato muito mais difícil conquistar o que almejamos – ainda que não dependa só desses fatores.

“A árdua tarefa de compor uma vida não pode ser reduzida a adicionar episódios agradáveis”, dizia Zygmunt Bauman. Depois de um dia após o outro e dos vários percalços que atravessam nossos anos de existência, é inevitável que um dia o cansaço se sobressaia. Mas os erros e as derrotas são fundamentais para aprender a lidar com a realidade, desenvolver o amadurecimento e nos engrandecer como seres humanos.

Apesar de termos inúmeras batalhas pela frente, sempre há um motivo pelo qual vale a pena lutar. E, convenhamos, a vida não tem graça sem alguns dragões.

Este editor atesta que Alícia Marédi não estava sob efeito de Felix Felicis quando foi aceita como colunista do Potterish.

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Categorias: Alícia Marédi, Colunas, Ensaios, Filmes 6-7, Livros 1-6
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