A memória é mais complexa do que um simples Obliviate

//Por Pedro Martins - sábado, 22 de julho de 2017 às 15:27

Por sorte os Potterheads temos hoje muito material sobre o qual especular, não é mesmo? Com o lançamento de Animais Fantásticos e Onde Habitam e os conteúdos inéditos do Pottermore, não nos faltam assuntos!

Na coluna de hoje, nossa colunista Débora Jacintho traça um paralelo bastante aprofundado entre substâncias e feitiços que alteram a memória no Mundo Bruxo. Vale a leitura!

A memória é mais complexa do que um simples Obliviate
Por Débora Jacintho

Uma das coisas que mais me chamou atenção em Animais Fantásticos e Onde Habitam foi a cena final, na qual Jacob Kowalski está em sua padaria, com vários doces e pães em formatos de animais da maleta de Newt, e Queenie Goldstein aparece. Os dois trocam um sorriso, e um esboço de memória transparece em sua expressão.

Jacob, como um no-maj, foi obrigado a perder sua memória dos acontecimentos mágicos com a chuva de veneno de Rapinomônio espalhada por Frank sobre Nova York. No entanto, como explicado por Newt, essa substância, quando diluída, tem a propriedade de eliminar “lembranças ruins” de uma pessoa, e não apagar completamente sua memória. Os no-majs que acompanharam os eventos envolvendo o Obscurus certamente consideraram essas lembranças terríveis, e então o contato com a chuva os livrou de todas as lembranças envolvendo a magia. Jacob, por outro lado, não teve apenas lembranças ruins do contato com bruxos; muito pelo contrário: ele se viu diante de um universo encantador, conviveu (mesmo que brevemente) com pessoas que considerou adoráveis e até vivenciou algum tipo de sentimento em relação a Queenie.

Eu quero ser um bruxo!

A partir dessa reflexão, levantam-se duas questões: primeiro, percebe-se que Jacob claramente não lembra exatamente do que vivenciou, mas se o veneno só apaga lembranças ruins, como aquela chuva o afetou completamente? E a segunda, na verdade, é uma hipótese, de que o veneno só apaga a lembrança dos fatos, não os sentimentos ligados a eles. Dessa forma, presume-se que o que Jacob sentiu quando experienciou o contato com o Mundo Bruxo na verdade permaneceu em seu íntimo, o que pode ser constatado pelos pães e doces em formato de animais e em seu sorriso a Queenie.

Até o momento, temos poucas informações sobre o tipo de encantamento do veneno do Rapinomônio, então ainda resta aguardar para descobrir os efeitos posteriores em Jacob. Mas, além disso, esses eventos suscitaram um paralelo com o Feitiço da Memória – Obliviate.

Esse feitiço é mostrado em geral sendo utilizado pelo Ministério da Magia como ferramenta para garantir o anonimato do Mundo Bruxo, algo ainda mais referido em Animais Fantásticos pelo MACUSA. Ademais, destaca-se dois casos diferentes desse padrão em Harry Potter: o de Lockhart e o dos pais da Hermione.

Primeiro, salienta-se que o Ministério da Magia da Grã-Bretanha tem um grupo de bruxos especializados – os obliviadores – responsáveis por apagar a memória de trouxas que estiveram em contato com magia. Esse primeiro pensamento é necessário, pois leva ao entendimento de que se trata de um encantamento complexo, que necessita de capacitação apropriada para executá-lo.

Muito bem!

Com isso, vamos esboçar o caso de Lockhart. Ele é um bruxo com aptidões não muito requintadas para a magia, incapaz de feitiços simples. No entanto, orgulha-se de ser especialista em Feitiços da Memória. De fato, os feitiços que realizou em bruxos dos quais roubou os trabalhos publicados em seus livros foram eficazes. Contudo, qual é seu verdadeiro nível de competência na realização desse feitiço? Ele seria capaz de reverter a perda de memória que provocou? Ou calcular o quanto de memória retirar? Nunca tivemos notícias dos bruxos que foram enganados por Lockhart para saber o quanto foi perdido de suas lembranças, ou se houve chances de recuperação.

Ao refletir sobre a natureza do Feitiço da Memória, considerei os seguintes aspectos: reversibilidade, seletividade e intensidade. Os obliviadores alteram nos trouxas apenas suas lembranças relacionadas à magia. A partir disso, pode-se deduzir acerca de seletividade e, de certa forma, também de intensidade. A reversibilidade, por sua vez, é um pouco nebulosa, mas há referências no feitiço proferido por Hermione em seus pais, algo que será abordado à frente.

Dessa forma, não se sabe ao certo até que ponto Lockhart era realmente perito em Feitiços da Memória. Sabe-se que as pessoas atingidas de fato perderam lembranças, mas não especificamente se total, parcial ou se seria reversível. Quando Lockhart é atingido por seu próprio Obliviate lançado com a varinha danificada de Rony, sofre uma amnésia completa e seu quadro se torna irrecuperável.

“O feitiço da memória saiu pela culatra. Atingiu ele em vez de nós. Ele não tem a menor ideia de quem é, onde está ou de quem somos. Eu o mandei vir esperar aqui. É um perigo para ele mesmo.” – Rony Weasley em Harry Potter e a a Câmara Secreta

Lockhart é internado no Hospital St. Mungus, na seção de Danos Permanentes Causados por Feitiços. A enfermeira aponta algum tipo de melhora, como seu apego por autografar fotos, e afirma que “com tratamento intensivo, com poções e feitiços e um pouco de sorte, podemos obter alguma melhora” (A Ordem da Fênix). Contudo, J.K. Rowling afirmou que Lockhart nunca terá sua memória de volta. Dessa forma, será que a não recuperação se deva apenas pelo fato de que a varinha utilizada estava avariada ou pode-se adicionar uma falta de aptidão (no controle dos três aspectos abordados) na execução?

“Alterei a memória dos meus pais para se convencerem de que, na realidade, são Wendell e Monica Wilkins, e que sua ambição na vida é mudar para a Austrália, o que eles já fizeram.” – Hermione Granger em Harry Potter e as Relíquias da Morte

Não é necessário explicar o talento de Hermione em magia, então infere-se que ela executou perfeitamente o feitiço, levando em conta todos os três aspectos. Em seletividade, Hermione alterou e implantou exatamente o que planejou, afirmando que os pais inclusive já se mudaram para Austrália e não têm ciência de ter uma filha. A intensidade foi propriamente calculada, de modo que eles não enlouqueceram, mas também garantindo que o feitiço fosse forte o suficiente para se manter. Em reversibilidade, a garota afirma ser possível recuperar suas lembranças: “Supondo que eu sobreviva à busca das Horcruxes, procurarei mamãe e papai e desfarei o feitiço.”

J.K. Rowling revelou que, após a guerra, Hermione reencontrou os pais e desfez o Feitiço de Memória. Com isso, conclui-se que é possível reverter os efeitos de um Obliviate. Porém, por ser um feitiço complexo, não são todos os bruxos que conseguem executá-lo com precisão absoluta. Assim, presume-se que a reversibilidade é um processo delicado que depende de como o feitiço foi executado. Da mesma forma, o controle da intensidade e da seletividade também derivam da performance do bruxo ao proferir o encantamento.

Por fim, ao comparar o Feitiço de Memória com o veneno do Rapinomônio, permanecem algumas dúvidas: esse último também seria reversível de alguma forma? A intensidade e seletividade são constantes – no sentido que sempre serão “lembranças ruins” e o bruxo executor não interfere? Ou a forma que o veneno é diluído e disperso pode alterar essas propriedades? Aliás, qual seria a definição de “lembranças ruins”? Como podemos classificar as vivências apagadas de Jacob nessa escala?

Acredito que há, no caso do encantamento por veneno de Rapinomônio, uma distinção entre fatos e sentimentos, e que as ligações criadas permanecem, podendo se manifestar em vestígios de memória. No Feitiço da Memória isso também poderia acontecer ou seria algo único da substância animal? No fim, podemos apenas especular e torcer para que Jacob recupere suas lembranças felizes dos momentos que viveu com Queenie, Newt, Tina.

O Potterish adverte: nenhum Obliviate será capaz de nos fazer esquecer este texto da Débora Jacintho.

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