Seção Granger: Trilogia “Legado Ranger”, de Raphael Draccon

//Por Kaio Rodrigues - segunda-feira, 27 de março de 2017 às 11:39

Aclamado por gerações desde 1980, Power Rangers chegou aos cinemas na última quinta, 23. Não podendo ficar de fora do lançamento, nosso editor, Kaio Rodrigues, traz a crítica de Legado Ranger, trilogia escrita pelo carioca Raphael Draccon que revisita os clássicos Tokusatsu orientais.

”Uma vez imerso nesse mundo, o leitor se sentirá como um Ranger em um campo de batalha, onde a morte pode estar na página seguinte.”

Para ler a crítica na íntegra, acesse a extensão deste post.

“Legado Ranger”, de Raphael Draccon
Por Kaio Rodrigues

Minha primeira viagem aos mundos de Raphael Draccon foi com Dragões de Éter. Os três livros marcaram sua carreira e a minha infância ao apresentar releituras profundamente inspiradoras dos clássicos contos de fada medievais. Com sua mais recente trilogia, o escritor carioca foi além: Legado Ranger é uma carta de amor ao Tokusatsu japoneses, que marcaram a década de 1980 graças a ícones como Changeman, Jaspion e Jiraya.

Se você já era nascido nessa época, sem dúvidas estará familiarizado com os Cemitérios de Dragões, terra marcada pelo reinado perverso de reptilianos escravocratas. Vindos de diferentes pontos da terra, cinco humanos são ali lançados e se ligam por simbiose a armaduras forjadas por anões-alquimistas em metal-vivo e sangue de dragão. Voltar para casa depende da sobrevivência em uma guerra que envolve demônios, bruxas e seres abissais, no melhor estilo Caverna do Dragão.

Mas se você, como eu, não nasceu nos anos de ouro do Tokusatsu, não entre em pânico! Com referências ainda mais intensas – que não prejudicam a compreensão narrativa – Cidades de Dragões marca as consequências do retorno do grupo de metalizados à Terra. Do Rio de Janeiro a Tóquio, passando por Kigali, Dublin e Washington, dragões espalham pânico e deixam rastros de destruição. Não bastasse isso, líderes mundiais se sentem ameaçados pelas estranhas armaduras e tornam ainda mais difíceis os desafios dos Rangers. “É o meu livro mais alucinado”, declarou Draccon.

O terceiro e último volume não poderia ter outro nome senão Mundos de Dragões. Afinal, os dilemas tomam proporções globais: cidades foram queimadas, florestas devastadas, e o mundo está prestes a entrar em guerra. Em meio a isso tudo, nossa dimensão é alcançada por uma demônio-bruxa que controla criaturas infernais e gigantes de pedra. A batalha final é épica e, não importa como termine, terá mudado definitivamente os rumos de todo o planeta.

Na trilogia, destacam-se o talento de Raphael Draccon para criar histórias profundamente gráficas – talvez uma herança de sua faculdade de cinema – e a politização de temas ficcionais – que dão um tom mais maduro a temas antes tratados como mero entretenimento. Seu já conhecido talento para criar mundos chegou a ser homenageado pelo rapper Emicida em seu último disco, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa. Uma vez imerso em toda a trama, o leitor se sentirá em um campo de batalha, onde a morte pode estar na próxima na página seguinte.

Essa imersão é um legado de Dragões de Éter, que permitiu a Draccon desenvolver um estilo único. Agora consolidado na carreira, presenteia o leitor mais uma vez com personagens críveis, que fogem do maniqueísmo comum ao gênero e parecem saltar das páginas. Como bom Potterhead, tamanhas semelhanças me fizeram lembrar do Mundo Bruxo de J.K. Rowling – afinal, nossos personagens queridos são muitíssimos bem construídos também. Confesso que é mirabolante, mas e se um dia os Rangers fossem para Hogwarts? Como seria a Cerimônia de Seleção?

Líder do grupo, o soldado norte-americano Derek Duke é corajoso e leal aos amigos. Sem dúvidas um Grifinório, sua armadura é movida a sangue de dragão escarlate. Em meio a todo o potencial de Draccon para a construção de personagens únicos, o protagonismo de Derek se firma unicamente nos estereótipos dos Tokusatsu oitentistas, e causam o inevitável questionamento: não fosse esta uma homenagem aos anos 1980, não estariam os mocinhos super-fortes ultrapassados?

Também para a Grifinória iria Ashanti, guerrilheira ruandesa crescida em meio aos conflitos étnicos que dizimaram seu povo. Com o senso de honra aflorado, a Ranger amarela é temperamental e explosiva, e às vezes questiona a liderança de Derek. Ela sem dúvidas poderia alcançar grandes feitos na Sonserina, mas, como fez Harry em sua Cerimônia de Seleção, com certeza fecharia os olhos, cruzaria os dedos e diria: “Sonserina não! Tudo menos Sonserina!”

O nipo-brasileiro Daniel Nakamura, por sua vez, é um gênio da tecnologia. Ainda que ame o Brasil, é no Japão que se sente em casa. De simples comunicadores a robôs gigantes com canhões de plasma, todas as máquinas do grupo são operadas por ele. Coincidentemente, o sangue do dragão que alimenta sua armadura é azul: cor de sua Casa, a Corvinal.

Romain Perrin, o ranger verde, é o mais autêntico dos cinco. Piadista, o dublê francês sonha com a fama e trabalha duro para conquistá-la. Apesar disso, nada o convenceria a abandonar a família ou os amigos. Romain faria companhia a Cedrico Diggory e Newt Scamander na mais mente-aberta das Casas: a Lufa-Lufa. Desvalorizado por seus atos infantis, Romain não se intimida e prova que as maiores batalhas não são vencidas com armas, mas com coragem, determinação e, claro, bom-humor.

De longe a mais problemática do grupo, a irlandesa Amber não tem papas na língua. Responsável pela maioria dos conflitos entre os cinco, a ranger rosa conquistou o coração de Derek, mas não consegue se entender com Ashanti. É ambiciosa, agressiva e não se daria melhor em outro lugar senão na Sonserina.

Mas e quanto a Raphael Draccon? O Potterish procurou o homem por trás de toda essa magia e descobriu que, por muito tempo, ele esperou ser mandado para a Sonserina. “Mas o Chapéu Seletor oficial do filme me mandou para a Grifinória. Vai entender!”

Rangers lideram o caminho!

Kaio Rodrigues é estudante de Letras da UERJ, colunista do Potterish e editor do Potterish. (O Pottermore o mandou para a Sonserina)

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