Seção Granger: “Vocação para o mal”, de Robert Galbraith

//Por Pedro Martins - domingo, 17 de abril de 2016 às 13:57

”Vocação para o mal” é o terceiro livro da série “Cormoran Strike”, escrita por J.K. Rowling sob pseudônimo de Robert Galbraith, e chega às livrarias de todo o Brasil amanhã (18) pela Editora Rocco. Nesta Seção Granger, trago a resenha crítica sem spoilers do melhor livro de Galbraith.

“J.K. Rowling mostra um lado não muito conhecido por seus leitores, algo que ela vem desenvolvendo gradativamente em sua série policial: cenas de muita crueldade à sangue frio.”

Para ler o texto na íntegra, acesse a extensão do post. A propósito, estamos sorteando um kit com os três livros da série – “O Chamado do Cuco”, “O Bicho-da-seda” e o lançamento “Vocação para o mal” -, saibam como participar por meio deste link.

“Vocação para o mal”, de Robert Galbraith
Resenha crítica por Pedro Martins

Em “Vocação para o mal”, seu terceiro livro escrito sob pseudônimo de Robert Galbraith, J.K. Rowling mostra um lado não muito conhecido por seus leitores, algo que ela vem desenvolvendo gradativamente em sua série policial: cenas de muita crueldade à sangue frio.

“O som abafado da lâmina em sua carne – o calor de seu sangue esguichando nas mãos dele –, ela nem mesmo gritou, ela arquejou, gemeu, afundando no banco enquanto ele lhe cravava a lâmina uma, duas, várias vezes.”

A trama começa quando Robin Ellacott, em um dia comum de trabalho, recebe uma encomenda. Esta encomenda, entretanto, não era nada comum: dentro da caixa, estava uma perna brutalmente desmembrada de um corpo feminino. O espanto provocado n’A Secretária (como o assassino a chama) e em Strike é imenso, mas o detetive logo de início já consegue pensar em quem poderia ter feito aquilo e até os seus motivos. Strike é um veterano de guerra e, em sua “carreira do mal”, desenvolveu muitos inimigos; além disso, a vida pessoal do guerrilheiro não fora das mais normais: sua mãe, uma groupie, possuía uma vida conturbada e, consequentemente, relacionara-se com indivíduos conturbados, cujas relações com Cormoran nunca foram boas.

Terence Malley, conhecido por decepar o pênis de um inimigo, Donald Laing, um ex-soldado escocês, Noel Brockbanck, um psicopata pedófilo, e Jeff Whittaker, marido de Leda Strike, que tentou e consegui matá-la por overdose, são três sujeitos que nutriam um ódio mortal por Strike e queriam destroçá-lo, vê-lo na sarjeta, usando Robin para atingi-lo e fazer com que o golpe fosse ainda mais fatal.

“Ele pretendia infligir tanta dor em Cormoran Strike, uma dor sobre-humanamente possível. Iria muito além de uma facada nas costas no escuro. Não, o castigo de Strike seria mais lento e mais inusitado, assustador, tortuoso, e por fim devastador.”

O problema é que o detetive particular não sabia sequer o paradeiro dessas figuras há décadas. Logo, a história se desenvolve com os parceiros de investigação Cormoran e Robin à procura de informações atuais de cada um dos três suspeitos, viajando pelo Reino Unido, entrevistando pessoas que podem ser de grande ajuda e tentando chegar a um veredito.

Galbraith constrói personagens como ninguém, à la J.K. Rowling. O desenvolvimento da história pessoal de cada um dos suspeitos é algo muito bem feito, muito profundo, o que ao mesmo tempo ajuda e prejudica o trabalho do leitor-detetive.

À parte dos suspeitos, há um grande espaço para a história de vida dos protagonistas, especialmente a de Robin, que sem dúvidas é a personagem feminina mais forte de J.K. Rowling. O brutal assassino estripador estava seguindo-a, tentando atingi-la. Isso, porém, não a faz querer ser considerada uma louça de porcelana e ter de ficar em casa sentada esperando que outros resolvam o caso. Em sua vida, Robin teve aulas de defesa pessoal, investigação e até direção avançada, e ela definitivamente não vai aceitar que o que sofreu no passado a defina, que interfira em sua vida mais do que já interferiu à época.

A narrativa onisciente não é extremamente linear, mas isso não é um ponto negativo, muito pelo contrário: há uma alternância entre capítulos focados em Strike, em Robin e, por mais diferente que possa parecer, no assassino, sem revelar sua identidade, é claro, mas dando ligeiras pistas aos leitores e explorando cada vez mais a sua mente doentia. Parafraseando a própria autora, a narrativa é uma montanha-russa, mas o leitor se sente seguro nela.

“Ele nunca entenderia o que o estupro fazia com os sentimentos que uma pessoa tinha pelo próprio corpo: achar-se reduzida a uma coisa, um objeto, uma peça de carne comível.”

Enquanto pesquisava para escrever esse livro, Rowling declarou ter tido pesadelos, algo compreensivo visto os temas pesados, e por vezes até desconhecidos, com que ela lida de forma maestral, como, por exemplo “Acrotomofilia, uma parafilia em que a satisfação sexual deriva de fantasias ou atos envolvendo um amputado”.

As epígrafes de todos os capítulos são trechos das letras da banda clássica de rock Blue Öyster Cult, enriquecendo ainda mais o livro (os leitores entenderão quando lerem).

Apesar de “O Bicho-da-seda” ser muito bom, sem dúvidas “Vocação para o mal” ousa em vários aspectos e é o melhor dos três livros já lançados da série “Cormoran Strike”. A única coisa que pode incomodar alguns leitores é a resolução do crime em si. Apesar de ser difícil de se descobrir o assassino, as explicações, à primeira vista, não convencem – mas estão lá!

Nos agradecimentos, Rowling diz que “Robert Galbraith sempre pareceu meu próprio parque de diversões”. Saiba ela que esse é um parque de diversões que tira o fôlego de qualquer um.

494 páginas, Editora Rocco, publicado em 2016.
Título original: “Career of Evil”.
Tradução: Ryta Vinagre.

Pedro Martins é estudante, leitor, Webmaster do Potterish e resenhista crítico do The Guardian.

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