O que eu encontrei em Hogwarts…

//Por Luiz Guilherme - domingo, 13 de janeiro de 2013 às 16:45

O sonho de receber a carta de Hogwarts perdura nos fãs muito depois dos onze anos de idade. De fato, muitos de nós continuam esperando sua coruja aos vinte, vinte e um, trinta anos. Essa é a magia de Harry Potter!

Nossa imagem fascinante de Hogwarts, contudo, não nos deixa ver os inúmeros defeitos que a escola possui. Sendo ou não mágica, Hogwarts é uma instituição formada por seres humanos, que possuem inúmeras qualidades pouco valorosas. Na coluna deste domingo Nilsen Silva aborda um pouco desse outro lado de Hogwarts. Leia e comente!

Por Nilsen Silva

Que atire a primeira pedra quem nunca se imaginou largando a vida de trouxa e indo viver várias aventuras na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Certo, talvez não sejam tantas aventuras assim, afinal, nenhum de nós faz parte da Sessão da Tarde. Mas e se isso realmente pudesse acontecer? E se cada um de nós, aos onze anos, tivesse recebido a tão sonhada carta e iniciado os estudos mágicos? Como seria viver em Hogwarts? Como seriam as aulas, os acenos de varinha, as refeições, os momentos de lazer… as pessoas?

Mais uma vez, eu decidi dar asas à minha imaginação. Excepcionalmente hoje, eu não sou a Nilsen quase formada em Jornalismo que tem um blog sobre livros e sonha em ser escritora. Hoje, eu sou a Nilsen que está quase se formando em Hogwarts, que tem Feitiços como matéria preferida e que sonha em se tornar um auror. Duas pessoas tão diferentes morando dentro de mim, vivendo as experiências mais inusitadas.

O dia a dia em Hogwarts é corrido, tão corrido quanto o meu dia a dia de trouxa. Não posso perder a hora de manhã, tenho que tomar café depressa e engolir os bolinhos e o suco sem nem mesmo sentir o gosto. A aula de Transfiguração começa em poucos minutos… eu tenho que estar presente para aprender coisas novas para construir o meu futuro. O engraçado é que, em Hogwarts, eu faço isso com tanto gosto e com tanto ânimo! Bem diferente de quando vou para a faculdade aprender sobre a Teoria da Comunicação. Em Hogwarts, eu não passo o tempo livre assistindo televisão e muito menos perco horas e horas a fio na frente do computador, atualizando seguidamente as páginas das redes sociais.

Minha nova vida é agitada e exige muito de mim, de um jeito bom. Aqui, eu sinto como se estivesse construindo um futuro para mim, sem a sensação de perder tempo com futilidades e coisas que não me acrescentarão em nada. Isso faz sentido? É muito egoísta da minha parte pensar assim, como se eu tivesse repudiando tudo aquilo que um dia já me pertenceu? Até os momentos de lazer me proporcionam as experiências mais marcantes, pois pouco a pouco vou descobrindo mais coisas sobre o mundo mágico. E isso é bom. É incrível.

No período da tarde eu tenho aula de Trato das Criaturas Mágicas. O clima está agradável, e, por mais que o sol tenha se escondido atrás de um bloco de nuvens espessas, nem assim eu consigo achar um aspecto que faça o mundo bruxo ficar abaixo do mundo trouxa. É tudo tão fantástico, tudo tão autêntico e dinâmico. Eu gosto até das criaturas que, em tese, deveriam me fazer mal e me machucar. Algo dentro de mim está começando a misturar ficção com realidade e eu sinto que em breve já não vou mais saber distinguir o que é real de imaginação.

Então, como se alguém tivesse lido os meus pensamentos, eu me deparo com uma situação que de mágico, inocente e belo não tem nada. Vejo um aluno da Corvinal apontando um dedo autoritário para uma aluna da Grifinória, chamando-a de burra, de incompetente, de irresponsável. De sangue-ruim. De repente, toda a proteção que eu mesma havia posto em volta do mundo fantástico de Hogwarts se estilhaça, como uma redoma estupidamente frágil, em mil pedaços. Preconceito. Desprezo. Segregação. Ouço algumas pessoas rindo e apontando suas varinhas para a aluna da Grifinória que está sendo encurralada no canto de um corredor. Eu penso em ajudar. Eu tento me mover. Mas a consciência de que Hogwarts não é o lugar perfeito está me abalando demais. Estou entorpecida.

Não é incrível como às vezes nós nos envolvemos com os aspectos positivos de um lugar que acabamos esquecendo que ele pode abrigar muitas desavenças e graves questões morais e sociais? O bullying e o preconceito, assuntos tão comentados nos noticiários trouxas, também estão presentes no mundo bruxo, e sob as formas mais severas. Em Harry Potter, presenciamos por páginas a fio o descaso de Malfoy com Hermione simplesmente por ela ter pais que não possuem ascendência mágica. Mas até que ponto isso prova ou confirma o caráter de alguém?

J.K. Rowling teve uma extrema cautela em lidar com questões tão delicadas em seus livros. Ela não buscou apenas contar uma história sobre um jovem bruxo vencendo o mal. Ela quis ir muito além disso. É por isso que a saga é tão profunda: porque ela não envolve apenas os dramas de Harry, mas também introduz o leitor aos sofrimentos que as pessoas próximas a ele sentem, e como isso o afeta. Uma das coisas que eu mais admiro na personalidade de Hermione é o quão forte ela é na hora de lidar com tanto descaso e preconceito – que não só vem apenas do Malfoy, mas também de outros bruxos e até mesmo de instituições.

É o caso do próprio Ministério da Magia, com a Comissão de Registro dos Nascidos Trouxas. À primeira vista, a Comissão aparenta ser apenas um órgão organizacional com uma imagem inofensiva, mas logo descobrimos os objetivos inescrupulosos que buscam obter o máximo de controle social possível. É uma hipocrisia enorme, pois, ao mesmo tempo em que se fala tanto em igualdade e em direitos iguais para todos, um órgão do próprio Ministério joga toda essa campanha pelo ralo, sem mais nem menos.

Harry Potter serve de alicerce para todos aqueles que, na vida real, também são alvo de maus tratos de terceiros, inspirando-os a combaterem isso e serem fortes. Remo Lupin, por exemplo, é um dos personagens que mais sofrem preconceito durante a saga, simplesmente por ser um lobisomem cujo lado lobo é controlado, de modo que as chances de ele fazer mal a alguém são pequenas. Mas alguém está disposto a ouvir essa explicação? De jeito nenhum. Para todos, Lupin é apenas um lobisomem, uma pessoa problemática que, assim que a lua fica cheia, se torna uma fera disposta a destruir e ceifar vidas.

Luna Lovegood sofre com as brincadeirinhas de mau gosto de seus “colegas” de classe, Neville sempre foi taxado de mil coisas até que finalmente pôde provar o contrário, Nick Quase Sem Cabeça é excluído da Caça dos Sem Cabeça e não tem nem chance de discutir essa questão… isso sem contar as brincadeiras diversas e, por vezes, nocivas que Tiago Potter e Sirius Black pregavam quando faziam parte dos Marotos.

Se Harry Potter me ensinou uma coisa em todos esses anos foi o de nunca desrespeitar alguém só porque essa pessoa é diferente e parece incapaz de realizar algo. Eu deixei a minha imaginação fluir, eu visitei Hogwarts e o que eu encontrei por lá foi um lugar parecidíssimo com o mundo dos trouxas, sob os aspectos mais diversos. Uma escola como qualquer outra, com professores que perseguem alunos, estudantes que não levam sua tarefa de estudar a sério, pessoas cheias de si que acham que têm o direito de maltratar os outros e uma segregação de classes e tipos de enormes proporções.

No fim, Hogwarts é igual a tudo aquilo que conhecemos. A diferença é que lá as pessoas podem fazer objetos flutuarem e verrugas surgirem na ponta do nariz dos outros quando bem entenderem.

Nilsen Silva se esqueceu de comentar, mas a menina da Grifinória foi salva pela rápida intervenção da Profª McGonagall.

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