Um bloquinho em caso de emergência

//Por Luiz Guilherme - segunda-feira, 17 de setembro de 2012 às 23:29

Quem estuda Jornalismo sabe: um bloquinho de anotações é item de primeira necessidade. Meus professores da universidade, tais como os de Nilsen Silva, não admitem que seus estudantes andem sem um no bolso. E nada de celular como substituto!

Nilsen Silva aborda essa temática em Harry Potter: Terá a nossa autora esquecido alguma parte dos livros por não ter à mão algo em que anotar? Leia a coluna e, se você tem o costume de escrever, não deixe de comentar alguma situação na qual se esqueceu de uma ideia genial pela ausência do bendito bloquinho de anotações!

por Nilsen Silva

Não há nada mais desafiador para um escritor do que uma página em branco do Word esperando para ser preenchida com palavras. Ouvi isso em uma aula de Gramática na escola, há uns bons quatro anos, e nunca mais me esqueci. Eu nem gostava muito da professora que me dava aulas (ela era pedante e se irritava por tudo), mas fiquei contente por ela ter me passado outro tipo de conhecimento além de como usar a crase corretamente e como se faz uma análise sintática.

Hoje, enquanto tentava pensar em um tema para a coluna, convenientemente lembrei deste momento e pensei: se eu me sinto desafiada quando vejo uma página em branco, quem dirá J.K. Rowling.

O pânico, para quem escreve, pode vir nas mais diversas situações. Eu também escrevo meus rabiscos – tudo por uma satisfação pessoal, apesar de eu admitir que gostaria de tornar isso profissional em algum momento nos próximos anos -, então acho que posso afirmar com propriedade que uma das coisas mais angustiantes que um escrevedor pode passar é não ter onde anotar uma ideia genial que simplesmente, repentinamente e inconvenientemente acabou de lhe ocorrer.

Sério. É frustrante. Imagine a cena: você está lá no fretado indo trabalhar, pegando aquele trânsito sensacional da subida da serra para São Paulo, e de repente uma cena genial – com direito a diálogos inteligentes e tudo, porque nessas horas Deus gosta de tirar uma com a nossa cara – aparece. Você pensa “que máximo, vou escrever, mas… cadê o meu bloquinho? E a caneta? Eu trouxe bloquinho e esqueci a caneta!”. Triste. Hoje em dia ainda há o conforto de ter o bloco de notas no celular, mas não podemos esquecer que quando J.K. Rowling foi abordada pela ideia de Harry Potter ela ainda não tinha um celular. Nem mesmo um papelzinho. Nada.

Pior que não ter onde anotar é achar que você vai se lembrar daquela cena mais tarde e descobrir que… tudo se apagou. Obliviate. Não sei quanto a quem escreve, mas isso frequentemente acontece comigo. Às vezes eu tenho sonhos que virariam ótimos contos, por exemplo, mas, ao acordar por cinco minutos em plena madrugada, dopada de sono, tomo a terrível decisão de não anotar e penso que “vou lembrar disso de manhã”. Pois é, não foi dessa vez.

Fico pensando se J.K. perdeu muitas ideias por falta de papel. Como foi chegar em casa e botar ordem em todas as ideias que ela teve na tão famosa viagem de trem de Manchester para Londres? Por onde será que ela começou? Como foi dar forma ao Harry e aos outros personagens pela primeira vez? Será que ela teve ali a ideia para o fim do livro? Teve que pesquisar muito? Eu gostaria de saber o que ela faz para lidar com a falta de inspiração, quais truques ela utiliza para não esquecer os detalhes, como ela estrutura os diálogos e como costura e amarra as inúmeras subtramas.

Mas, mais do que tudo, eu queria saber como ela se sentia digitando palavras que, já ali no livro três ou quatro, ela sabia que milhões de pessoas iriam ler. E comentar. Escrever é prazeroso, mas também pode ser assustador para quem escreve em grandes proporções. Deu tudo certo para ela, pelo menos. Os livros foram publicados e fizeram sucesso. As páginas em branco estavam ali. Não importa se elas eram feitas de papel ou fossem uma representação digital na tela do computador. O importante é que a sede de escrever e despejar as ideias era tanta que ela não se deixou intimidar. E eu – e toda a comunidade potteriana – seremos eternamente gratos por isso.

Nilsen Silva escreve tanto que seu bloquinho de anotações precisou virar um caderno universitário.

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