Infância Potteriana

//Por Luiz Guilherme - sábado, 07 de abril de 2012 às 21:04


A nossa nova colunista Nilsen Silva estreia com um ensaio interessante sobre a infância, e como Harry Potter a influenciou nessa fase tão importante da vida, e as lembranças que temos de Harry Potter vêm naturalmente em meio à leitura.

O ensaio nos leva a relembrar sobre como Harry esteve conosco em períodos importantes de nossas vidas, especialmente na infância e na juventude. Não se esqueça de ler a coluna e deixar seu comentário!


 por Nilsen Silva

Foi comemorado na semana passada o Dia Internacional do Livro Infantil. Nós, Potterianos, sabemos que Harry Potter é um daqueles livros mágicos (com o perdão do trocadilho manjado) que não se adequam a nenhum gênero específico. Tal como Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, que mostram que há muito mais sentimentos e reflexões além do que se vê, a saga do bruxo de cabelos rebeldes nos ensina as delícias de ser criança e, também, nos mostra os infortúnios que crescer, mesmo em toda a sua glória, pode trazer.

A criatividade de J.K. Rowling é algo simplesmente admirável.  Mestra das palavras, da escrita e, claro, da imaginação, ela não poupou esforços para tornar Harry Potter uma das séries literárias mais fantásticas – no sentido literal da palavra – do mundo. Com a ponta dos dedos, ela criou um universo novo, dando vida a personagens que eu bem queria que fossem reais, criaturas que eu bem queria que existissem, banquetes que eu adoraria saborear e objetos úteis e inusitados que com certeza tornariam a minha vida mais fácil.

Ela mexe com a fantasia. E no que se concentra grande parte de nossa infância senão na imaginação? Lembro bem das tardes de dezembro e janeiro, no auge do calor, que eu passava dentro da minha cabana na floresta fugindo de todo o mal que me cercava. Quero dizer, na minha barraca improvisada com algumas cadeiras e um lençol. Na sala de casa. Para fugir das broncas da minha mãe. Na minha mente, meu cantinho era extremamente moderno, equipado, climatizado e aconchegante. Eu tinha a companhia de meus fiéis amigos, a Sra. Boneca e o Sr. Ursinho, e nada podia me abalar. Acontece. Era escapismo, era diversão… na forma mais bruta de todas.

Pouco tempo depois, lá com meus dez anos, descobri que a fuga podia ser representada de outras maneiras. Filmes, desenhos e, claro, livros. Harry Potter e a Pedra Filosofal havia parado em minhas mãos por indicação de uma garota da qual eu nem gostava tanto assim e, logo, a magia havia entrado de vez na minha vida. Esperei pela carta sim, e fiquei um pouco chateada quando nada aconteceu. Vai que aquela britânica de olhar melancólico sabia do que estava falando, não é mesmo? Eu fiquei ligada – e continuei deste jeito com os próximos livros.

Assim como Harry e todos os outros jovens da série, eu cresci. A diversão ainda estava lá, mas deveres foram surgindo com o passar do tempo. Fiquei temperamental, também, como ele em A Ordem da Fênix. Um monte de coisa acontecendo acaba mesmo mexendo com a nossa cabeça. Mas eu sempre mantive a criança viva dentro de mim, alimentando-a com boas doses de devaneios e generosas pitadas de brincadeiras sem noção. Eu precisava acreditar em alguma coisa para que as páginas mais cheirosas do mundo continuassem fazendo sentindo, e isso se tornou um conforto dos bons.

Livro para crianças? Pode até ser. Mas eu sei bem que a história não gosta de excluir ninguém e adultos podem, sim, se identificar. Olhem só para mim! Quase vinte e um anos na cara e ainda fico arrepiada com o conto do prisioneiro de Azkaban, sonhando alto com um Natal nevoado em um castelo e uma partida de quadribol…

Sei que é complicado ser trouxa, se ater a um outro universo apenas pelos capítulos de um livro e torcer para que a cola e a costura que unem as páginas sejam fortes o suficiente para a realidade não te atingir com a força de um feitiço. É a vida, né? Seja criança, aproveite. Se é vida… só se vive uma vez

Obs: O Dia Internacional do Livro Infantil foi criado em homenagem ao dinamarquês Hans Christian Andersen. O autor, que já teria mais de 200 anos se estivesse vivo, marcou a história da literatura infantil com seus contos de fada como “O Patinho Feio”, “O Soldadinho de Chumbo” e “A Polegarzinha”. Curiosamente, J.K. Rowling ganhou, em setembro de 2010, o Prêmio Hans Christian Andersen de literatura por ser uma das autoras que ajudam, à sua maneira, a propagar a literatura para crianças e jovens.

Nilsen Silva ainda espera pela carta de Hogwarts.

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