O voo solo da África

//Por Sheila Vieira - domingo, 13 de novembro de 2011 às 10:00

Nos últimos anos, está cada vez mais fácil ter acesso a autores de continentes como a Ásia e a África. Essa troca de experiências faz com que os mundos europeu e americano tenham uma outra visão de sua cultura e história.

Mia Couto é um dos mais notáveis escritores africanos. O moçambicano alcançou reconhecimento mundial por seus romances que buscam uma identidade nacional, mas de uma maneira diferente da que estamos acostumados a entender. Como sempre, a literatura explica por linhas tortas. Confira a resenha de “O último voo do flamingo.”


“O último voo do flamingo”, de Mia Couto

Tempo: para ler de um tiro só no fim de semana
Finalidade: para pensar
Restrição: para quem não gosta de longas descrições
Princípios ativos: África, colonização, tradição, idioma, cultura.

Contar a história da África é sempre um grande desafio. Primeiro, porque as fontes principais sempre foram colonizadores que viam o continente com os olhos do explorador. Mas mesmo os historiadores contemporâneos, que buscam a história pré-colonial, costumam encontrar dificuldades pela falta de documentos escritos. A cultura africana sempre foi marcada pela oralidade. Dessa forma, é imprescindível que os próprios africanos traduzam para o papel o que vivem. O moçambicano Mia Couto é um dos escritores mais notáveis a fazer isso.

Porém, não espere em “O último voo do flamingo” um registro histórico fiel. Para começar, os acontecimentos do livro se sucedem em Tizangara, uma comunidade imaginária de Moçambique. O período é pouco depois da independência (1975) e um grupo de esquerda está no poder vigiado de perto pela ONU. Apesar das inúmeras mortes locais, a Organização só se preocupa quando seus militares começam a aparecer mortos, na verdade, explodidos, sem deixar pistas.

O italiano Massimo Risi é mandando para Tizangara para desvendar o mistério e ganha a companhia de um tradutor, sem nome, que é o narrador do livro. Nesse momento, o leitor espera o começo de uma narrativa de suspense e investigação, como já vimos e lemos diversas vezes. Mas é exatamente nessa parte que somos surpreendidos.

Quanto mais Risi tenta se infiltrar na cultura moçambicana para desvendar os mistérios, mais perdido ele fica diante de personagens misteriosos, das crenças em feitiços e coisas sobrenaturais, de bebidas alucinógenas, e de coisas sem explicação. O leitor pode até sentir uma certa frustração com a resolução do mistério, mas ela atende perfeitamente à proposta de Couto.

Seria muito fácil colocar Risi como narrador, por ele ser o branco que tenta entender a África e criar uma identificação com os leitores estrangeiros. Mas Couto escolheu de forma correta o tradutor, pois ele simboliza exatamente a dificuldade de refazer os significados não só entre idiomas, mas de uma cultura para outra.

“A sabedoria do branco mede-se pela pressa com que responde. Entre nós o mais sábio é aquele que mais demora para responder. Alguns são tão sábios que nunca respondem”, diz a prostituta Ana Deusqueira. Em outra passagem, o pai do tradutor afirma: “O problema deles é manter a ordem que lhes faz serem patrões. Essa ordem é uma doença em nossa história. Antigamente queríamos ser civilizados. Agora queremos ser modernos”.

“O último voo do flamingo” é um manifesto ficcional de identidade de Moçambique, mas que também pode ser entendido como africano em suas devidas proporções. O livro demonstra de forma eficaz como é difícil trazer a África tradicional para o entendimento europeu de história.

Resenhado por Sheila Vieira

225 páginas, Editora Companhia das Letras, 2006.
Publicado originalmente em 2000.

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Categorias: Resenhas, Romance histórico, Sheila Vieira
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