A busca pelo paraíso perdido na fantasia

//Por Sheila Vieira - terça-feira, 25 de outubro de 2011 às 08:43

C.S. Lewis estabeleceu uma orientação moral e religiosa dentro da literatura britânica com seus livros infantis sobre o mundo de Nárnia, publicados nos anos 50. Quase 40 anos depois do último livro de Lewis ser lançado, Philip Pullman, com sua trilogia Fronteiras do Universo, rompe essa orientação.

Uma história dividida em três livros, repleta de ação, magia e personagens complexos que evoluem ao longo de suas experiências. Ciência, religião, bruxas boas escassamente vestidas, religiosos perversos, crianças mal comportadas que se transformam em heroínas, espectros, anjos rebeldes, mundos alternantes e toda sorte de criaturas estão envolvidos numa guerra que pode desmantelar a Criação e derrotar o próprio Deus. Uma temática bastante forte, sem dúvida. Quem vence? Só lendo a resenha de Natallie Chagas para saber!


“A Bússola de Ouro”, “A Faca Sutil”, “A Luneta Âmbar” – Trilogia “Fronteiras do Universo”, de Philip Pullman

Tempo: para ler de um tiro só no fim de semana
Finalidade: para ficar na ponta da cadeira
Restrição: para quem não gosta de coisas moderninhas
Princípios ativos: fantasia; ciência; religião; Deus; magia.

Roger é amigo de Lyra. Seu desaparecimento leva a menina e seu dimon, Pantalaimon, a procurá-lo. Eles viajam para os reinos frios do Norte, onde vivem ursos de armaduras e bruxas-rainhas voam pelos céus congelados. Lyra possui um aparelho que auxiliará na missão, caso ela consiga decifrar suas mensagens misteriosas. Mas o equipamento contém segredos assustadores sobre a viagem e os perigos que os esperam em mundos distantes.

A leitura de “A Bússola de Ouro” prende a atenção do leitor desde o início. A história começa em Oxford, mas uma Oxford de outro mundo, que eu, particularmente, adoraria conhecer. A narrativa começa devagar, mas já com um “quê” de mistério, mencionando o Pó. No decorrer do livro, o leitor percebe que Lyra também tem um papel muito importante, tipo “a criança prometida ou esperada” ou algo assim. É uma obra cercada de motivos e temas cristãos, e faz uma alusão a uma parte da história da Criação presente em várias culturas: a guerra de um anjo (conhecido depois como Lúcifer) contra Deus e sua queda. Philip Pulman demonstra o mal que existe em cada ser humano ao colocar como pretenso destruidor da Autoridade (Deus) um homem. Poderoso, inteligente, com um ar belo e cativante, sim, mas somente um homem. É uma história que, como eu disse, prende a atenção do início ao fim, e que também emociona.

Will Parry tem 12 anos e acabou de matar um homem. Agora está fugindo, decidido a descobrir tudo sobre o pai que não conheceu. Ao mesmo tempo, tem que se preocupar com a mãe, que sofre de algum tipo de distúrbio. Sem querer, atravessa uma janela que dá para outro mundo, não a Oxford de Lyra, mas um lugar totalmente desconhecido, onde espectros devoradores de almas assombram as ruas de uma cidade e Lyra está à procura do Pó. Ambos se empenham em buscas diferentes que, sem saberem, estão misteriosamente ligadas.

Ele precisa encontrar um objeto secreto e poderoso, e acaba percebendo que pessoas de mundos diferentes matariam para possuí-lo. A Faca Sutil revela novos personagens e novos mundos, como se fossem dimensões paralelas. As coisas acontecem dentro da Oxford de Will e de Lyra, dimensões coexistentes, mas uma sem consciência da existência da outra. E é isso que Will e Lyra descobrem, ao passarem por mundos diferentes. Claro que o livro mostra Oxfords diferentes e outros mundos também diferentes. Passagens ou aberturas entre esses mundos sempre existiram, e Will, como novo portador da faca sutil (segundo objeto mais importante depois do aletiômetro), precisa aprender a lidar com elas. O leitor, nesse livro, passa a entender mais sobre o Pó. Somado as referências ao pecado primordial e a Eva (principalmente ela), a mente voa porque começa a aparecer uma amizade que pode se encaminhar para algo além entre Will e Lyra.

“A Luneta Âmbar” fecha a trilogia. Lyra desaparece e, em seu encalço, estão: Will, que quer ajudar a amiga; a Igreja, que a considera a nova Eva e, por isso, tenta eliminá-la antes da repetição do pecado original, e Lorde Asriel, comandante de um exército de anjos, humanos e pequenos seres alados que, ciente do poder revolucionário de Lyra, a quer ao seu lado. Se no segundo livro, a referência ao Paraíso Perdido de John Milton fica um pouco evidente, no último, é uma referência clara e total.

Nos livros de Pullman, Deus é chamado de Autoridade, Lyra faz referência a Eva, Will, a Adão, e a Cobra tentadora na árvore é uma cientista (antes, freira) Mary Malone. Lorde Asriel e vários outros personagens, inclusive anjos (referência aos anjos decaídos que acompanham Satã na guerra contra Deus), começam a guerra. O livro não retrata a guerra início-meio-fim, mas o leitor sabe quando começou e terminou. No último livro, há a explicação definitiva do que é o Pó, sua ligação com os dimons, a ligação existente estes e suas crianças (porque eles mudam de forma somente quando seus pares são crianças e quando assumem sua forma definitiva), e a ligação mais importante: entre o Pó, o ser humano enquanto criança e quando adulto e o dimon.

Uma das melhores trilogias que eu já li. Enquanto a coleção de Nárnia fala de Deus e Jesus Cristo, o Salvador, de uma maneira bem sutil, a trilogia “As Fronteiras do Universo” trata do momento da Criação, do pecado original e do anjo decaído de uma forma muito clara. Particularmente, adoro cosmologias e cosmogonias. Um dos meus livros favoritos é O “Silmarillion”, que faz muitas referências ao livro do Gênesis e ao poema O Paraíso Perdido (para quem não sabe, o poema de John Milton fala da queda do principal anjo de Deus, depois conhecido como Satã, e da corrupção de Adão e Eva e sua expulsão do Paraíso). Longe de mostrar que é preciso de intercessores entre o homem e Deus para se resgatar o paraíso perdido por Adão e Eva, a trilogia de Philip Pullman retrata o que seria a ação final do homem para ter o direito de pisar nos jardins do Éden novamente.

Resenhado por Natallie Chagas

429 páginas, Editora Objetiva, publicado em 2009.
*Título original: Northern lights.

359 páginas, Editora Objetiva, publicado em 2009.
*Título original: The subtle knife.

528 páginas, Editora Objetiva, publicado em 2009.
*Título original: The amber spyglass.

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Categorias: Aventura, Natallie Alcantara, Resenhas
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