Entre novelas e romances

//Por Sheila Vieira - domingo, 27 de março de 2011 às 09:57

Vencedor do prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa escreveu um romance sobre novelas: “Tia Julia e o escrevinhador”, de 1977. Trata-se de uma obra autobiográfica (mas com algumas ‘verdades inventadas’, claro) sobre um rapaz na Lima dos anos 50, seu amor por uma tia e a rádio onde ele trabalhava.

Usando o recurso da metalinguagem e do entrelaçamento de diversos enredos, sempre ‘enganando’ o leitor, Vargas Llosa mostra que é possível fazer uma boa narrativa tão leve quanto uma novela, sem cair em clichês e soluções fáceis. Leia a resenha e deixe seu comentário!

“Tia Julia e o escrevinhador”, de Mario Vargas Llosa

Tempo: para ler pouco a pouco em intervalos durante a semana
Finalidade: para rir
Restrição: sem restrições
Princípios ativos: romance, novela, Lima, rádio, escrita.


Nos dias de hoje, pega mal dizer que você assiste a uma novela (a da TV, não o gênero literário). Afinal, as tramas geralmente são sempre as mesmas, o número de personagens é tão grande que fica complicado se aprofundar em uma história, enfim, todas as conhecidas críticas a esse estilo de dramaturgia.

No entanto, Mario Vargas Llosa faz uma verdadeira homenagem às novelas, ou melhor, às antigas rádio-novelas em “Tia Julia e o escrevinhador”, através de uma narrativa engenhosa. Primeiramente, o autor conta sua história como redator de uma rádio em Lima nos anos 50, onde conhece Pedro Camacho, um famoso boliviano que escrever novelas de extrema audiência na América Latina.

Caricato, Camacho impõe seu talento na rádio e chama a atenção de Varguitas com suas ideias sobre a escrita. Aspirante a escritor, Mario tens bons papos com o escritor de novelas sobre as possibilidades e caminhos de uma narrativa. Tentando conciliar o atribulado dia-a-dia na rádio com a faculdade de Direito e o sonho de parar com o trabalho automático como jornalista, Varguitas é surpreendido por uma paixão inesperada.

Ele se apaixona por Tia Julia, uma mulher, obviamente, bem mais velha que ele e divorciada. Os dois começam um romance secreto que evolui com o tempo e se torna impossível de esconder. O desafio de enfrentar a família e encontrar um jeito de ter um relacionamento com uma divorciada, algo mal visto na época, é a aventura do protagonista nesse romance.

No entanto, Vargas Llosa intercala nos capítulos a sua história com algumas novelas de Pedro Camacho, confundindo o leitor e construindo narrativas que nos deixam sempre querendo saber o final quando são cortadas, numa simulação da mesma sensação que temos quando um capítulo de novela termina.

Divertido, inteligente, espirituoso e comovente, o livro é uma boa porta de entrada para o mundo de Vargas Llosa, mais um escritor latino-americano vencedor do prêmio Nobel.

Resenhado por Sheila Vieira

359 páginas, Editora Objetiva. Publicado em 2007.
Título original: La tía Julia y el escribidor. Publicado originalmente em 1977.

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Categorias: Resenhas, Sheila Vieira
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