Ódio em família

//Por Sheila Vieira - domingo, 23 de janeiro de 2011 às 21:12

Família nem sempre é sinônimo de amor. Principalmente quando dois irmãos se odeiam desde os primeiros dias de sua vida. Cada um segue seu caminho, com vidas completamente diferentes, e se reencontram expondo as cicatrizes de uma família dividida.

O cenário é a cidade de Manuas e o narrador transita entre o presente e o passado da história. “Dois Irmãos” é uma obra vencedora do Prêmio Jabuti e um dos livros mais bem conceituados dos últimos tempos no país. Leia a resenha de Gabriela Alkmin e saiba mais!

“Dois Irmãos”, de Milton Hatoum

Tempo: para ler pouco a pouco em intervalos durante a semana
Finalidade: para pensar
Restrição: para quem não gosta de perder tempo com longas descrições
Princípios ativos: irmãos, ódio, vingança, Manaus, ditadura militar.

Yaqub e Omar são irmãos gêmeos, mas, além da aparência física, a única coisa que têm em comum é a inimizade que sentem um pelo outro. Muito diferentes desde a infância, a rivalidade entre os dois foi semeada aos treze anos, devido à disputa pelos afetos de uma mesma menina, Lívia. O resultado dessa competição, uma cicatriz no rosto de Yaqub, fez com que os pais achassem melhor separá-los.

O Caçula, como também era chamado Omar por ter nascido alguns instantes depois, ficaria com os pais – a mãe deles, Zana, alegava que a saúde do menino era frágil e que ele não resistiria sem os cuidados dela. Yaqub, mesmo sendo o agredido, foi mandado para o Líbano, país de origem do seu pai, levando consigo um ressentimento que carregaria até o final da sua vida.

Com o retorno do Líbano e o reencontro dos irmãos, após cinco anos, as diferenças entre os dois estão cada vez mais acentuadas. Omar, criado sob os mimos excessivos da mãe, tornou-se um bon vivant, amigo das farras e das mulheres, que não se compromete nem com os estudos nem com o trabalho. Yaqub, por outro lado, concentrou suas energias na ambição de se provar a todos, dedicando-se arduamente aos estudos, sempre alimentando, com suas mágoas, o desejo de vingança.

“Dois Irmãos”, publicado em 2000, ganhou o prêmio Jabuti daquele ano e foi traduzido para vários idiomas. Considerado pelos críticos um dos melhores romances brasileiros dos últimos anos, a trama, muito bem construída, nos apresenta a história de uma família em Manaus, sua fragmentação e suas complicadas relações. Somos apresentados aos gêmeos Yaqub e Omar, ao pai Halim, apaixonado por sua mulher, Zana, e à irmã dos gêmeos, Rânia, que foge de todos os seus pretendentes.

O narrador do livro é Nael, filho da empregada Domingas, cujo pai era desconhecido – ele desconfia, entretanto, desde o começo da história, de que seja um dos gêmeos. Através do que testemunhou e dos relatos que ouviu, principalmente através de sua mãe, Domingas, e do seu possível avô, Halim, ele tentar reconstruir a história da família, bem como a evolução e o desfecho do conflito entre os dois irmãos, em uma narrativa sem cronologia linear – o narrador recua e avança no tempo ao longo dos capítulos.

O romance também retrata as mudanças que aconteceram em Manaus durante a narrativa – do seu passado glorioso, passando pela fome e miséria durante os anos de guerra, até o regime militar e ocupação de Manaus, atraindo migrantes e causando mudanças significativas na cidade. Hatoum constrói uma narrativa envolvente, misturando a história de Manaus à história da família, convidando o leitor, através das
palavras, a acompanhar a trajetória dos dois irmãos até a última página.

Resenhado por Gabriela Alkmin

198 páginas, Editora Companhia do Bolso, 2006.
Publicado originalmente em 2000.

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