Ode à Marginalidade

//Por Sheila Vieira - domingo, 07 de novembro de 2010 às 17:18

Numa das épocas mais obscuras da história brasileira, muitos cidadãos tentavam lutar de inúmeras maneiras. A arte, sem dúvida, foi uma das armas mais poderosas e conseguiu sobreviver diante da censura. A ditadura militar acabou, mas os belos versos dos poetas desse período permaneceram.

Heloísa Buarque de Holanda, integrante de uma família muito importante nesse movimento, organizou uma série de poesias denominadas “marginais” na época. Além de criticar o país, as belas palavras pediam um novo tipo de arte, que prezava pela ousadia e a afronta aos “bons costumes”. Leia a resenha de Thiago Terenzi e deixe seu comentário.

“26 Poetas Hoje”, organizado por Heloísa Buarque de Holanda

Tempo: para ler de um tiro só no fim de semana
Finalidade: para pensar
Restrição: para quem tem dificuldades com pontos de vista alternativos
Princípios ativos: poesia, literatura marginal, ditadura militar, Brasil.

Durante a década de 70, em pleno auge da ditadura militar, um tipo de literatura incomum começou a ser produzido no Brasil. Eram textos mimeografados e distribuídos de forma independente em bares e universidades espalhados pelas cidades brasileiras. Eram textos esteticamente estranhos, por vezes tachados de “sujos”, “pornográficos” e “não-literários”. Era a chamada Poesia Marginal, que, em 1976, ganhava uma compilação em livro: “26 Poetas Hoje”, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda.

Esqueça as visões tradicionais sobre poesia: métrica, rima, linguagem difícil, temas grandiosos – nada disso cabe aqui. Heloísa Buarque de Hollanda compila em sua obra a poesia de 26 poetas que tinham em em comum a necessidade de desconstrução. Entre os poetas marginais, a beleza poética se transforma em choque, desbunde e descompromisso. Era um tapa na sociedade brasileira em plenos anos setenta, auge da repressão ditatorial. Levando a contracultura a extremos, a poesia marginal foi alvo de críticas e diversas polêmicas: numa época em que misturar cultura pop – tida como inferior – à literatura – a chamada Alta Cultura – era pecado mortal, os poetas marginais dialogaram incansavelmente com o Pop e o Tropicalismo. A destituição da poesia de seu degrau de Arte Nobre não agradou aos intelectuais. Nem mesmo a Academia Brasileira de Letras conseguiu enxergar relevância naquela estranha obra.

Versos como “(será mesmo com dois esses/ que se escreve paçarinho)”, de Cacaso, mostram o descompromisso desses poetas com a linguagem. Sempre irônico e ácido, boa parte dos autores não poupam críticas à Ditadura Militar, como em “Ficou moderno o Brasil/ ficou moderno o milagre:/ a água não vira vinho/ vira direto vinagre” ou “Em que berço dorme o/ som do mar e a luz/ ao céu profundo?/ No berço cego”.

“Faz tanto calor no Rio de Janeiro/ que é bom sentir essa neve/ partir de seu olhar”; “Um dia todos os peixes/ puseram a cabeça para fora da lagoa/ e me olharam”; “Ninguém me ama/ ninguém me quer/ ninguém me chama de Baudelaire”. Versos como esses não raro causam o desconforto típico da Literatura Marginal, surge então o questionamento: Isso é poesia? O que afinal é poesia? Nenhuma resposta nos é dada. A resposta, aliás, não é almejada pelos marginais: eles implementam a dúvida, o questionamento. E isso basta. A dúvida do que seria poesia é intensificada a partir do momento em que alguns poemas nem ao menos nos são apresentados em verso, como é o caso de boa parte da obra produzida por Ana Cristina César.

Questionadora e subversiva, a obra organizada por Heloísa Buarque é mais que um válido e rico registro da resistência contra a ditadura e os bons costumes; é uma leitura agradável e de fácil entendimento. O humor constantemente presente na obra além dos temas libidinosos e o uso constante de palavrões dão um sabor especial ao livro. É uma vingança da poesia contra o formalismo e a nobreza que lhe eram atribuídos.

Resenhado por Thiago Terenzi

272 páginas, Editora Aeroplano, 2007.

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