Tropa de corujas

//Por Sheila Vieira - domingo, 17 de outubro de 2010 às 10:29

As corujas estão automaticamente ligadas a Harry Potter toda vez que se fala delas em Literatura. Mas esses adoráveis animais também estão presentes em outros livros, como em “A Lenda dos Guardiões”. Neste caso, também levadas às telas de cinema. Nossa resenhista Luciana Zulpo nos indica a obra de Kathryn Lasky, que lida com o mundo de aventura, afinal, as corujas são humanizadas, mas com características realistas. A troca de penas, o modo como elas voam, tudo isso está presente junto a uma história comovente e bela. Leia o texto e deixe seu comentário!

“A Lenda dos Guardiões – A Captura”, de Kathyrn Lasky

Tempo: para ler pouco a pouco em intervalos durante a semana
Finalidade: para ficar na ponta da cadeira
Restrição: para quem tem dificuldades com pontos de vista alternativos
Princípios ativos: corujas, lendas, aventura, rebelião, identidade, amizade.

“Uma lenda, Kludd, é uma história que você começa a sentir na moela e, com o passar do tempo, se tora verdadeira em seu coração. E, talvez, o transforme em uma coruja melhor.”

Tudo está bem no ninho das corujas de Tyto. Tão bem que eles poderiam estar ensaiando para aqueles comerciais que mostram a família perfeita perfeitamente alegre tomando café da manhã. Noctus conta a seus filhotes – Soren, Kludd e Eglanine – histórias fantásticas sobre corujas guerreiras, os Guardiões de Ga’Hoole, que todas as noites saiam de sua árvore no centro do mar de Hoolemere para reparar injustiças, fortalecer os fracos e tirar o poder dos que abusam dos indefesos. Mal sabia Soren que acreditar nessas lendas será a única coisa que lhe dará forças para ficar vivo.

Soren caiu do ninho. Já ouvira milhares de vezes dos pais o que poderia acontecer com corujinhas que caem do ninho. Tantos perigos rastejam pelo chão da floresta…o que ele não esperava era um perigo vindo do ar: corujas da tropa de S.Aegolius. Soren é raptado e levado para uma academia para órfãos, onde será obrigados a fazer todo tipo de trabalho forçado. Lá ele conhece a corajosa coruja-duende Gylfie, que o ajudará a resistir.

Existe algo muito mais sombrio acontecendo em S. Aegolius. O que são as partículas que as corujinhas são forçadas a coletar? Porque elas não podem se lembrar quem são? Perguntas que não podem ser feitas. Qualquer questionamento é punido. Soren e Gylfie logo perceberão que encontrar as respostas é mais importante do que fugir de lá – todas as corujas livres estão em perigo. É assim que eles decidem encontrar as lendária corujas de Ga’Hoole em busca de ajuda.

Confesso que, a principio, pensei estar diante de mais um manual de bom comportamento disfarçado de livro de aventura. Viu o que acontece quando você sai de casa sem os seus pais? Eu escutava o narrador perguntar acusativamente, quando Soren foi raptado. Soren fica horrorizado ao ouvir a palavra feia, vejam só, “bobalhão”. Tudo isso, no entanto, pode ser interpretado como um reflexo da vida mimada e super-protegida que ele leva no começo da narrativa. Esse moralismo vai sendo relativizado ao longo do livro, conforme os personagens amadurecem.

A questão da identidade é algo que chama a atenção. As corujinhas órfãs são levadas a esquecer seus nomes e ganham um número no lugar. Logo, tudo o que elas foram um dia está diluído em uma massa disforme de corujas trabalhadoras, que conseguem uma falsa satisfação em fazer bem o seu “trabalho”. Sua própria natureza é negada, quando a vontade de voar é tirada delas. É Gylfie quem chama a atenção para a responsabilidade de manter a cabeça no lugar em um mundo que está de cabeça para baixo.

Podem ser corujas, mas você vai achar rapidamente paralelos com situações bem humanas. A Academia S. Aegolius podia muito bem ser um campo de concentração, por exemplo. O problema é que simplesmente surgem paralelos demais. Tropeçar em metáforas a todo momento pode ser uma grande distração. É preciso desligar um pouco o botão de analise se você quiser uma imersão no mundo das corujas, sem ter os solavancos de transportar as situações a realidade humana.

Dentro da história, até que ponto as corujas foram humanizadas? Além de falar e pensar, elas parece funcionar dentro de uma lógica cultural humana. A autora imaginava escrever um livro não-ficcional sobre corujas, então incluiu neste livro muitas características naturais delas, como a troca de pena, as “pelotas” que elas regurgitam ou o mecanismo do vôo. Acontece que cada etapa do desenvolvimento natural das corujinhas é ritualizado, como na Cerimônia De Primeiros Ossos.

Na adaptação cinematográfica, que ainda está em cartaz, pode-se ver que os animadores tiveram um cuidado extremo a manter a movimentação das corujas o mais próximo do real, tirando uma licença poética apenas nas expressões. O filme, que adapta a história dos três primeiros livros (cuidado com spoilers!), tem um visual deslumbrante. Tanto nos mínimos detalhes – você vê que penas estão desalinhadas! – quanto nos cenários épicos. A força visual do filme é enorme, com algumas imagens que ficarão em sua mente por muito tempo.

Nós, especialmente a “geração Harry Potter”, podemos entender perfeitamente a importância de uma história. E, como Soren, sabemos que elas podem nos ajudar a superar fases difíceis. Sabemos o quanto elas podem se tornar verdadeiras dentro de nós.

Achar os lendários guardiões de Ga’Hoole é como voar: só é preciso acreditar.

Resenhado por Luciana Zulpo

175 páginas, Editora Fundamento, primeira edição em 2010.
*Título original: Guardians of Ga’hoole: the capture. Publicado originalmente em 2003.

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Categorias: Luciana Zulpo, Resenhas
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