Renato Russo: O roqueiro de óculos

//Por Bruna Moreno - domingo, 26 de setembro de 2010 às 16:58

O que mais gostava era ler e estudar; não era nenhuma Hermione. Era inseguro e tímido; mas não era nenhum Rony. Usava óculos, tinha aparência fraca e foi o marco de uma geração; poderia ter se chamado Harry Potter, mas seu nome era outro: Renato Russo.

Por meio do olhar do jornalista Carlos Marcelo, o leitor tem a oportunidade de conhecer um outro Renato Russo, menos líder, mais verdadeiro e humano. Não deixe de conferir a resenha de hoje e postar no seu comentário suas impressões sobre este homem que, apesar da morte, ainda vive na memória.

“Renato Russo: filho da revolução”, de Carlos Marcelo

Tempo: para ler de um tiro só no fim de semana
Finalidade: para pensar
Restrição: para quem não gosta de perder tempo com longas descrições
Princípios ativos: biografia, Legião Urbana, Renato Russo, Rock.

Os anos oitenta podem ser considerados anos de constante instabilidade, um período em trânsito, em intensa transitoriedade. Transitávamos entre a ditadura e a democracia, o nacionalismo e o
individualismo, os valores morais e o hedonismo, a censura e a liberdade e tantas outras dicotomias típicas de uma sociedade desacostumada às liberdades individuais. Nesse contexto particularmente paradoxal, nasceu o BRock, o rock produzido em território nacional. Tão paradoxal e instável quanto o estilo musical, talvez seja um dos seus principais representantes: Renato Russo. A
biografia “Renato Russo: O filho da Revolução” busca decifrar quem era o homem frágil por trás da alcunha de líder da Legião Urbana.

Aos que viveram a juventude durante a década de oitenta – tem-se aqui, será, leitores que beiram os quarenta? –, dispenso apresentação. Mas vamos a ela: a Legião Urbana foi uma das bandas mais populares da história do Brasil, seus shows eram capazes de encher estádios inteiros – feito comum apenas em festivais e eventos internacionais. Seu líder, Renato Russo, letrista de mão cheia e barítono no melhor estilo clássico, emocionava os fãs com suas letras ora intimistas, ora sociais; ora engraçadas, ora tristíssimas; ora universais, ora simples crônicas do cotidiano. Renato, meio sem querer, foi se tornando o líder de uma religião de seguidores fanáticos, um objeto sagrado de culto.
Até os críticos mais fervorosos do trabalho da banda são obrigados a reconhecer o fenômeno que a Legião causou em sua época.

O jornalista Carlos Marcelo, autor do ensaio biográfico, nos brinda com uma análise ainda mais interessante do que seria aquela focada no mito Renato Russo: seu foco recai sobre a pessoa Renato Manfredini Jr., um jovem cheio de fraquezas e inseguranças, tão tímido que seria difícil imaginá-lo líder de qualquer coisa. A biografia nos mostra um Renato cheio de recalques e medos, extremamente desajeitado com as mulheres e inseguro quanto à homossexualidade.

Carlos Marcelo nos mostra também um garoto sedento por livros e cultura. Interessava-se por tudo: literatura, filosofia, poesia, astros, teatro cinema e, claro, música. Tinha poucos amigos, era o que chamavam de CDF ou nerd, tanto faz. Buscou a música como fuga da sua realidade frágil e tediosa. Deu certo.

Imagine um garoto mirrado de óculos e de aparência frágil. Imagine-o, de repente, se tornando uma estrela. Famosíssimo. Transformado em um líder poderoso sem ao menos sê-lo. Poderia este ser Harry Potter. Mas é Renato Russo. E, neste caso, com um agravante: ao contrário do protagonista dos livros de J.K Rowling, Renato é tão frágil quanto alguém poderia ser. Ele sente como poucos o peso de ser considerado gênio. Não raro, tem medo de subir no palco; odeia a vida de viagens e
turnês. “Vocês esperam que eu tenha a resposta, mas eu não sei qual é a pergunta”, bradou ele num dos mais famosos shows. Por esses motivos, a Legião Urbana fez tão poucos shows.

“Renato Russo: o Filho da Revolução” acerta em focar o que poucos conhecem: o lado humano de seu protagonista. Acerta também em contextualizar a figura de Renato, afinal, ele foi um homem de seu tempo. Descobriu o mundo durante os anos oitenta, época transitória e instável. Talvez por isso fosse ele emocionalmente tão transitório e instável. Por ironia, sua obra caminha ao contrário: ela permanece. Continua vencendo os anos e ainda hoje sendo lembrada. Forte e segura.

Resenhado por Thiago Terenzi

416 páginas, Editora Agir, 2009.

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