O guia das respostas

//Por Sheila Vieira - domingo, 29 de agosto de 2010 às 10:06

Escreva “resposta do universo, da vida e tudo o mais” num mecanismo de busca. O resultado não será ‘amor, religião ou estabilidade’, mas sim o número 42! Trata-se de uma referência ao “Guia do Mochileiro das Galáxias”, um programa de TV britânico criado por Douglas Adams, que foi adaptado para os livros e para os cinemas. Nossa resenhista Luciana Zulpo nos indica a série de cinco livros que chegou às grandes telas em 2005, protagonizado pelo ator Martin Freeman. Quer saber as respostas das grandes questões do mundo através da ironia e do non-sense típicos dos Brits? Leia o texto e deixe seu comentário!

“O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams

Tempo: para ler pouco a pouco em intervalos durante a semana
Finalidade: para rir
Restrição: para quem tem dificuldades com pontos de vista alternativos
Princípios ativos: ficção cientifica, espaço, non-sense, humor, ironia

“A história do Guia do Mochileiro das Galáxias é feita de idealismo, lutas, desespero, paixão, sucesso, fracasso e pausas para almoço absurdamente longas.”

Há dias em que tudo o que é infinitamente improvável acontece. Arthur Dent, um britânico de cerca de 30 anos, imaginava que ao acordar iria escovar seus dentes, tomar seu costumeiro chá e leria o jornal matinal. Tranquilamente.

Porém, o que de fato aconteceu foi que sua casa foi demolida para construção de um desvio; a Terra foi demolida para construção de uma moderna hipervia espacial; ele foi salvo da destruição do planeta por Fod Prefect, um ator desempregado, que na realidade era uma extra-terrestre disfarçado de ator desempregado; foi encontrado pelo robô maníaco-depressivo Marvin, o presidente da Galáxia Zaphod Beeblebrox e a jornalista Trillian; foi arrastado em uma alucinante jornada pelo espaço em busca da Pergunta Fundamental com os quatro seres citados. Tudo isso antes de trocar seu roupão.

O Guia, como todos os habitantes da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia deveriam saber, é o mais extraordinário dos livros publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor, mais popular que a Enciclopédia Celestial do Lar, mais vendido que Mais Cinqüenta e Três Coisas para se Fazer em Gravidade Zero e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolonn Colluphid, Onde Deus Errou, Mais Alguns Grandes Erros de Deus e Quem É Esse Tal de Deus Afinal?

Vou chamar a cópia descarada do prólogo do livro no último parágrafo de inspiração, para que esta resenhista que vos escreve fique fora do paredão quando a revolução estourar.

O Sr. Douglas Noël Adams é, como dizem, apenas humano. Em outras palavras, uma forma de vida bípede, baseada em carbono e descendente de primatas. Para ser mais específica, é um ser nascido em 1952 em Cambridge, conhecido por escalar o Kilimanjaro vestido de rinoceronte em prol de causas ambientais e também por ter escrito “O Guia do Mochileiro das Galáxias”.

Não espere encontrar um universo ficcional com regras delimitadas e respeitadas. São com histórias hilariantemente absurdas que Adams consegue expor o ridículo da sociedade humana. Tudo aquilo que é “a mais pura verdade e uma visão altamente respeitada, amplamente compartilhada por todas as pessoas que pensam direito, as quais podem ser reconhecidas como pessoas que pensam direito pelo mero fato de compartilharem esse ponto de vista” entra no radar de Adams para ser questionado, relativizado e graciosamente destruído.

Seu humor ágil e ácido e sua ironia fina vão desconstruindo as nossas mais prezadas instituições, costumes e o senso comum. Aliás, qualquer tipo de senso vai desaparecer em uma nuvem de ilógica antes do final da leitura.

Quando se trata de descrever as reações dos personagens diante do inusitado, Adams sempre acerta na poderosa mistura de descrença, desespero, humor e non-sense. A receita é especifica para cada personagem, gerando diálogos fantásticos quando eles se encontram. É assim que Adam trabalha as relações interpessoais dos personagens: diálogo.

Além da (nem sempre) velada crítica social, da reflexão de como o Universo vive sacaneando seus habitantes, o Guia também trata de aspectos práticos da vida. Seus leitores passam a saber da importância de sempre carregar uma toalha consigo, qual é o truque para se aprender a voar, o porque de não se poder jogar uma letra Q em qualquer lugar e, o mais importante de tudo, qual é a resposta da Vida, do Universo e Tudo o Mais.

O Guia foi inicialmente uma série de rádio, exibida em 1978. O primeiro livro, “Guia do Mochileiro das Galáxias”, foi publicado em 1979, seguido por “Restaurante no Fim do Universo”, 1980, e “A Vida, o Universo e Tudo Mais”, 1982. Neste mesmo ano, foi ao ar uma mini-série de TV, produzida pela BBC . Para completar a trilogia de cinco livros, Adams publicou em 1984 “Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes!” e “Praticamente Inofensiva”, em 1992.

A série também gerou um filme em 2005, decepcionante em termos de adaptação e que não consta no banco de dados de Marvin pois “eu fico com dor de cabeça só de tentar rebaixar meu intelecto ao seu nível”. Recentemente, o autor da série “Artemis Fowl”, Eoin Colfer, deu continuidade a série, publicando “Só mais uma coisa…”, que gerou das mais variadas reações nos fãs, especialmente sobre incluir ou não o livro no cânone.

Se você está em dúvidas se deve comprar a grande Enciclopédia Galáctica ou o Guia, tenha em mente que o Guia, em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz impressa na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO.

(Por conta de algum acidente aleatório no espaço-tempo, um exemplar do Guia editado no futuro informa que a resenhista foi a primeira a ir para o paredão quando a revolução estourou.)

Resenhado por Luciana Zulpo

20p páginas, Editora Sextante, primeira edição em 2009.
*Título original: The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy. Publicado originalmente em 1979.

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Categorias: Luciana Zulpo, Resenhas
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