A epifania em Clarice

//Por Sheila Vieira - domingo, 08 de agosto de 2010 às 14:54

Inspiradora de muitas gerações, homens ou mulheres, Clarice Lispector é uma referência para qualquer jovem que pretenda escrever. Nascida na Ucrânia, mas brasileira, é a imagem da própria subjetividade. Uma das sensações que seus escritos oferecem é a epifania. Característica essa que Thiago Terenzi explica na resenha da obra com o começo mais curioso da autora. “A Paixão Segundo G.H.” tem como ponto de partida uma barata! Não conhece essa obra de Clarice? Leia o texto e deixe seu comentário!

“A Paixão Segundo G.H”, de Clarice Lispector

Tempo: para ler pouco a pouco em intervalos durante a semana
Finalidade: para pensar
Restrição: para quem tem dificuldades com pontos de vista alternativos
Princípios ativos: Clarice, epifania, intimismo.

A epifania é talvez a marca registrada de Clarice Lispector. É – em boa parte dos seus contos e romances – mais ou menos assim: a personagem protagonista vive numa suposta harmonia até que um evento aparentemente cotidiano lhe causa certo incômodo. A partir daí, o leitor é convidado a assistir a uma espécie de confusão e caos emocionais em que a personagem é submersa. Este pequeno evento típico do dia a dia causa na protagonista um incômodo seguido de reflexão – a chamada epifania. Depois desse clímax epifânico, a personagem volta ao seu equilíbrio – mas nunca àquele equilíbrio anterior; agora um novo, a partir do aprendizado conseguido em seu momento caótico.

E neste roteiro se pauta “A Paixão Segundo G.H”. Neste livro, o enredo se desenvolve quando a protagonista G.H se depara com uma barata em sua própria casa. Este evento tipicamente banal gera uma série de reflexões que vão perdurar por toda a obra. Ao contrário, porém, do que possa parecer, este roteiro pré-fixado não limita as possibilidades da obra – na verdade, Clarice se mostra dona de uma inventividade surpreendente ao criar climas e reflexões a partir do lugar-comum, de onde, aparentemente, não se esperaria tal façanha.

Clarice se vê livre para discorrer sobre questões intimistas e universais sem se apoiar em paradigmas e clichês. O leitor, não raro, encontra na obra um espelho de seus próprios sentimentos – há uma estranha e intensa identificação entre o leitor e a obra clariciana (a recíproca também é verdadeira: a obra se identifica com a figura do leitor).

É muito comum – talvez pela facilidade de Clarice em traduzir sentimentos universais – encontrarmos citações de frases da autora em orkuts, twitters e outros meios sociais da intenet. Entre suas obras, certamente “A Paixão Segundo G.H” é um dos livros cujas frases e trechos mais são reproduzidos pela internet. Talvez seja válido dizer que esta obra seja formada por um conjunto imenso de frases-síntese relacionadas entre si – aquelas frases que, em poucas palavras, traduzem sentimentos complexos.

“A Paixão Segundo G.H” é uma obra inquietante, intimista e extremamente reflexiva. Ler Clarice é um convite a um exercício diferente – ao invés de decodificar as palavras, ganha-se mais sentindo-as.

Resenhado por Thiago Terenzi

180 páginas, Editora Rocco.
*Publicado originalmente em 1964.

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