Contos, pássaros, vida e ilusão

//Por Sheila Vieira - domingo, 18 de julho de 2010 às 10:45

A dica de hoje das Resenhas do Potterish são contos noruegueses. Mas não se trata de um autor desconhecido, pelo contrário. Jostein Gaarder escreveu “O Mundo de Sofia”, um livro que, todos sabemos, fez enorme sucesso. Porém, como dissemos anterioramente, o lado contista de Gaarder é a nossa pauta, e Luciana Zulpo nos indica “O pássaro Raro”, uma reunião de dez textos, nos quais os personagens se dão conta da “verdade” e não precisam mais questionar os porquês da vida e da existência. Ficou curioso? Leia o texto e deixe seu comentário!

“O pássaro Raro”, de Jostein Gaarder

Tempo: para ler pouco a pouco em intervalos durante a semana
Finalidade: para pensar
Restrição: para quem tem dificuldades com pontos de vista alternativos
Princípios ativos: romance, persuasão, casamento, sociedade inglesa, séc. XIX.

“Teobaldo era uma personagem de romance que não queria mais se submeter à imaginação de seu autor. Teobaldo queria cometer atos com os quais o autor nem sequer sonhava. Queria usar palavras que não existiam no vocabulário do autor. Se conseguisse isso, sua servidão sob o domínio do escritor teria um fim. E ele seria um personagem livre.”

“Teobaldo e Teodoro” é um dos dez contos que compõe o livro “O Pássaro Raro” – “Diagnosen og andre noveller”, no original norueguês, que pode ser traduzido literalmente por “O diagnóstico e outras histórias”. É a primeira publicação do autor Jostein Gaarder, que viria a ser aclamado mundialmente pela sua obra “O Mundo de Sofia”. Nesta primeira obra já podemos observar a característica que deu reconhecimento ao autor – a capacidade de escrever vários livros em um livro, vários contos em um conto. Nunca qual deles você encontrará ao abri-lo.

Explico melhor. Se você quiser, o conto citado acima pode ser uma aventura, narrando o jogo de gato e rato do criador Teodoro e da criatura Teobaldo (Quem é o gato? Quem é o rato?). O conto “Scanner do Tempo” pode ser uma boa ficção científica, nos levando ao ano de 2150, quando a humanidade deixa para lá sua humanidade para viver apenas de sua grande invenção – um scanner que permite observar qualquer época, qualquer lugar. Já o conto “Ponto de Encontro: Casltel Sant´Angelo” é um romance banhado em sangue de Ine e Morten pelas ruas de Roma. Em “O Diagnóstico’, temos um drama de uma jovem mulher diagnosticada com um tipo letal de câncer. O cardápio de gêneros é variado.

Teodoro conclui que “a vida é um romance e o mundo, uma ilusão”. É a deixa para o questionamento da natureza da nossa própria realidade. Aí chegamos a uma outra leitura possível dos contos: como tratados filosóficos. Esta é a grande magia de Gaarder – a compreensão do poder das histórias em carregar conhecimentos, pensamentos e reflexões que só seriam transmitido com muito trabalho – para o leitor e autor – de outra forma. Ao lermos uma história, vivenciamos situações únicas. Se a história é uma aventura, saímos dela cansados, mas recompensados; se é sobre um paciente terminal, vamos sentir sua a mão gelada em nossas por algum tempo; se é um romance, teremos o conhecimento que só amantes tem. O autor aproveita-se dessa “identificação projetiva”, expressão cunhada por Freud, para instilar no leitor complexas questões filosóficas. A história é apenas um gatilho para o leitor refletir sobre os mais variados temas.

O narrador tem grande liberdade para inserir esse tipo de reflexão em meio aos pensamentos e ações dos personagens. Embora isso funcione a maior parte do livro, em alguns pontos essa junção parece ser um pouco forçada. Alguns momentos parecem existir apenas para induzir alguma reflexão do narrador, o que denuncia o aparato do autor, o segredo de sua mágica. O distanciamento da história é imediato quando isso acontece. Em “O Mundo de Sofia” essas junções ocorrem de modo mais orgânico, não dá para se ver tão facilmente o nó que amarra as duas coisas – reflexão pura e história.

Em alguns pontos a narrativa torna-se um pouco arrastada, muitos dos detalhes fornecidos parecem não ajudar o enredo a caminhar, ou na construção dos personagens e nem mesmo a criar a atmosfera dramática. Para leitores mais sensíveis a esse tipo de excesso, algumas passagens serão cansativas.

Todos os personagens são levados a um despertar, a uma consciência cristalina de si mesmo – levando o leitor junto. Os contos são sempre precedidos por um pequeno texto, que complementam a significação de cada conto. Em um dos textos, que cedeu seu nome a versão em português do livro, é dito que “a maior parte do tempo o mundo desperdiça dormindo. A maior parte do espaço também. Apenas de vez em quando, ele esfrega os olhos e desperta para a consciência de si mesmo. Quem sou eu? De onde venho? – indaga o mundo. Por alguns segundos, o pássaro raro pousou em seu ombro”. Para mim, isso condensa o espírito de toda a obra – o convite ao leitor a observar o vôo desse pássaro, sua visita a cada personagem.

Quem sabe ele não pousa em nossos ombros também?

Resenhado por Luciana Zulpo

205 páginas, Editora Companhia das Letras, primeira edição em 2005.
*Título original: Diagnosen Og Andre Noveller. Publicado originalmente em 1986.

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Categorias: Luciana Zulpo, Resenhas
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