Rivalidades à parte…

//Por Sheila Vieira - terça-feira, 08 de junho de 2010 às 19:11

Este domingo foi um dia tenso entre os fãs de Harry Potter e Crepúsculo. O MTV Movie Awards motivou campanhas dos dois fã-clubes a favor de suas sagas favoritas. No entanto, há muitos leitores que gostam das duas. E o espaço de Resenhas deixará as diferenças de lado. Gostando ou não da prosa de Stephenie Meyer, confira aqui a resenha de Luciana Zulpo sobre “Crepúsculo”, que fala sobre o estilo da autora e desconstrói alguns argumentos falhos contra a obra. Dê uma olhada e bote a boca no trombone!

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“Crepúsculo”, de Stephenie Meyer

Tempo: para ler pouco a pouco em intervalos durante a semana
Finalidade: para se emocionar
Restrição: para quem não suporta melodrama
Princípios ativos: vampirismo, romance, colegial, proibição.

Isabella Swan – ou Bella – é uma colegial desajeitada e sem graça. Querendo dar mais espaço para sua mãe e o novo marido dela, Bella resolve mudar-se para a casa de seu pai, na pequena e nublada cidade de Forks. Primeiro dia de aula. Escola nova. Essas duas palavras que causam arrepios em muitos adolescentes quando colocadas em uma mesma sentença. Até aqui, não temos nada de anormal na trama. Aliás, grande parte das pessoas já passaram por isso. Esse é um ponto fundamental que ajuda a entender o fenômeno Crepúsculo: sua protagonista é tão normal quanto aquela garota calada no canto da classe que você vê todos os dias. Talvez você mesma seja ou foi essa garota.

Logo de cara, Bella percebe que não é a única deslocada naquele lugar. Extremamente belos, pálidos e bem vestidos – os Cullen não são exatamente o tipo de pessoas que você espera encontrar no refeitório da escola. O mais novo (e desacompanhado) Cullen – Edward – divide a bancada com ela nas aulas de biologia, onde começa uma amizade um pouco conturbada entre os dois. O que é um longo processo de investigação para Bella é entregue prontamente ao leitor logo na contra-capa do livro: Edward é um vampiro. Outra descoberta para Bella: ela está apaixonada por ele e, aparentemente, seu amor é correspondido.

Para deixar claro, esse texto trata apenas do volume um da saga. Há tantas diferenças nos defeitos e qualidades de cada livro que prefiro tratá-los separadamente, restringindo o foco dessa resenha.

Talvez mais interessante que a enorme onda de fãs que a saga conquistou seja a grande massa daqueles que detestam o livro. Se Crepúsculo é moda, odiar Crepúsculo é mais ainda. Sem entrar na questão de qualidade literária, que será abordada mais adiante, pode-se ver uma das grandes armadilhas na qual a obra caiu – publicidade equivocada. Crepúsculo acabou por atrair um público que não era o seu – aquele que estava sedento por uma boa história de vampiros à moda antiga, regada a muito sangue, estacas, caninos afiados e pescoços expostos. Quem leu o livro com essa expectativa, na certa se sentiu enganado. Não é disso que se trata o livro. É preciso, então, separar o que é de fato uma crítica à obra desse sentimento de expectativas quebradas.

A trama é essencialmente sobre os conflitos psicológicos de Bella, sobre os relacionamentos com aqueles que a rodeiam, sobre a força do primeiro amor. Stephenie Meyer, a autora, declarou não ter se baseado em livros como “Drácula”, de Bram Stoker ou “As Crônicas Vampirescas”, de Anne Rice. Sua fonte de inspiração foram livros como os de Jane Austen -“Orgulho e preconceito” e “Razão e Sensibilidade”, com um viés muito mais intimista. Stephenie acertadamente não aposta em seqüências de ação, mantendo sempre o conflito dentro da mente de cada personagem – o que combina perfeitamente com a proposta mais introspectiva do livro. O foco está nos sentimentos, que são passados ao leitor com detalhes e clareza pela narradora Bella, com um vocabulário apropriado para uma adolescente, sem se tornar pobre ou requintado demais.

No que diz respeito a críticas, a que mais se repete é a acusação do livro ter obtido sucesso abusando de idéias de consumo certo – que garota não quer ter alguém tão perfeito que literalmente brilha jurando seu amor eterno a ela? Que vai protegê-la para sempre? Embora isso certamente tenha contribuído, milhares de livros com essa premissa são lançados todos os anos e não viram um sucesso instantâneo. É um dos ingredientes, talvez até mesmo um facilitador, mas não é a receita toda.

Não se pode ignorar o elemento sobrenatural. O novo conceito de vampiros, sua adaptação aos tempos atuais (vampiros dirigindo um Monster Truck? Jogando baseball?), as novas regras – não morrem ao sair no sol, por exemplo- deram nova força a um dos seres mitológicos mais atraentes, bem como fizeram a obra abocanhar um outro perfil de público.

Apesar de não terem a mesma ferocidade dos vampiros tradicionais, o perigo está ali. Os Cullen são “vegetarianos”, isto é, se alimentam de sangue não humano. Ainda assim, Edward não arrisca chegar muito perto de Bella, temendo não resistir a um gole do seu sangue. Aquilo que é naturalmente perigoso sempre exerce uma atração e um fascínio próprio, que Bella sabe narrar tão bem.

Edward é cauteloso ao aproximar-se de Bella e tocá-la. Sua força pode facilmente quebrá-la ou sua sede pode fugir ao seu controle, a qualquer momento. Involuntariamente, a relação deles acaba adquirindo uma áurea de inocência. Não são colocados em discussão aspectos mais delicados da sexualidade. Há um certo conforto, tanto para o leitor quanto para a autora, adquirido ao desviar de assuntos mais espinhosos. Ainda assim, o erotismo delicado e com senso de oportunidade é um dos pontos altos (que, infelizmente, perde-se nos próximos livros). Meyer consegue articular com sensibilidade os rubores, sorrisos, leves toques e abraços compondo um belo jogo de cena.

A epígrafe, retirada do Gênesis (aliás, quem disse que vampiros e bíblia não combinam?), resume o espírito da obra: “Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais”

Edward é a maçã de Bella, assim como Bella é a maçã de Edward.

Resenhado por Luciana Zulpo

390 páginas, Editora Intrínseca, publicado em 2008.
*Título original: “Twilight”. Publicado originalmente em 2005.

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Categorias: Luciana Zulpo, Resenhas
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