Quem tem medo de clássico?

//Por Sheila Vieira - domingo, 16 de maio de 2010 às 13:07

Uma das maiores dificuldades que alguém pode passar na vida é ser preso. Agora, imagine estar encarcerado na Sibéria, um mundo abaixo de zero. Fazendo trabalhos forçados, ainda por cima. Essa é a trama de “Recordações da Casa dos Mortos”, do grande Dostoiévski. Confira aqui a resenha de Thiago Terenzi sobre um grande clássico do autor russo e reflita sobre a nossa dificuldade com os livros mais antigos. É possível superar a barreira da linguagem distante? Leia a resenha e dê a sua opinião!

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“Recordações da Casa dos Mortos”, de Fiódor Dostoiévski

Tempo: para ler de pouco a pouco em intervalos durante a semana
Finalidade: para pensar
Restrição: para quem tem dificuldade com pontos de vista alternativos
Princípios ativos: Filosofia, Literatura russa, Dostoiéviski, Revolução Russa, prisão.

O autor deste livro foi preso e condenado à morte em plena Rússia do século 19. Seria ele fuzilado por um pelotão de soldados fortemente armados, como era comum na época. Mas, instantes antes da execução, já de olhos vendados, recebeu a notícia de que sua pena havia sido substituída por quatro anos numa prisão de trabalhos forçados na Sibéria. Imagine: passar quatro anos em um lugar onde as noites chegam a durar mais de 24 horas e o frio é insuportável. Daria um bom livro, não?

Pois este autor escreveu “Recordações da casa dos mortos”, um romance baseado em suas experiências enquanto viveu na sombria e gélida prisão de trabalhos forçados da Sibéria. Um enredo como este conseguiria facilmente atrair a curiosidade de qualquer leitor ávido por uma boa estória, certo? Mas este autor é Dostoiéviski e o livro é um dos maiores clássicos da história da literatura mundial. Alguém aqui tem medo de clássico?

Há quem sue frio quando ouve falar em Dostoiéviski, Machado de Assis, Cervantes, Tomas Mann, Kafka, Álvares de Azevedo, entre outros. Quando o professor exige a leitura de algum destes, um medo terrível adentra o corpo do aluno: é o Medo do Clássico.

Mas acalme-se! Nada está perdido – o clássico pode sim se tornar uma leitura interessantíssima. Há beleza – e muita! – nas palavras mofadas de um livro cânone. E digo com conhecimento de causa: já fui um desses que preferia jogar bola ou videogame ou entrar no MSN ou ir no cinema ou dormir ou assistir tevê… tudo, menos ler um Temível Clássico. Fui fisgado para esta que chamam de Literatura Erudita ao ler o livro que agora recomendo: “Recordações da casa dos mortos”, de Fiódor Dostoiéviski.

São sempre as mesmas as queixas quanto aos clássicos: a linguagem é dificílima; o livro não prende a atenção do leitor; são páginas e páginas de descrições chatíssimas, onde está a ação?…

Vamos com calma. Ao ler um livro antigo, quase sempre escrito há séculos, devemos nos comportar como o leitor daquela época – ou, ao menos, tentar entendê-lo. Imagine como viviam as famílias nos séculos 18 ou 19. Não existia televisão, poucos tinham rádio e, se você nascia em uma cidade, dificilmente iria conhecer algum outro lugar – se nascesse no interior, possivelmente jamais conheceria o mar. Imagine como aquele leitor se maravilhava com descrições detalhadíssimas de um mundo que ele jamais iria conhecer. Era uma experiência única. As descrições que ocupavam páginas e páginas, naquela época, não eram de forma alguma chatas.

É preciso entender, também, que a maneira de falar muda com o passar dos anos. A forma estranha com que Machado de Assis se utilizava do português, lançando mão de palavras difíceis e construções estranhas, nada mais era do que a língua comumente utilizada naquela época. Ele não soava estranho no século 19.

Quando entendemos o porquê das dificuldades de se ler um clássico, a leitura fica mais fácil. Conseguimos entender melhor o que o livro quer nos passar. E conseguimos, então, nos adaptar a uma leitura que exige, talvez, um pouco mais de concentração.

E talvez nem seja um pecado tão grande pular algumas descrições ou procurar por uma tradução mais atual do livro, a fim de encontrar um vocabulário mais usual. Atire a primeira pedra quem nunca pulou uma página ou outra de um clássico qualquer. O importante é conseguirmos desfrutar da magia dos clássicos assim como os leitores da época em que ele foi escrito também desfrutavam.

E, em “Recordações da casas dos mortos”, quando perdemos o Medo do Clássico, ganhamos uma leitura interessantíssima. É impossível não rir das sacadas ácidas de Dostoiéviski ou nos colocar no lugar daquele pobre – ou talvez não tão pobre assim… – preso tentando sobreviver num lugar em que o Sol parece se esquecer de iluminar.

Não que os livros da nossa época sejam ruins, mas é sempre importante expandir os horizontes literários. Imagine como será um pouco mais triste a vida dos nossos netos se não lerem Harry Potter por achá-lo uma leitura difícil e antiga? Eles perderiam, no mínimo, uma excelente estória de magia que vai muito além da própria magia.

Afinal, um dia, Harry Potter também será clássico.

Resenhado por Thiago Terenzi

144 páginas, Nova Alexandria, publicado em 2006.
Título original: Zapiski iz Mertavo Doma, publicado em 1861.

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Categorias: Resenhas, Thiago Terenzi
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