Os escritos de Sarajevo

//Por Sheila Vieira - domingo, 18 de abril de 2010 às 08:49

Se escrever a História já é uma tarefa muito complexa, mais ainda é trabalhar com fatos históricos e construir uma ficção de qualidade. Geraldine Brooks encarou o desafio e realizou uma das obras mais bem conceituadas de 2008. Confira aqui a resenha de Gabriela Alkmin sobre “As Memórias do Livro: romance sobre o manuscrito de Sarajevo”, que conta a história de uma restauradora de obras literárias mandada à capital da Bósnia. Além de descobrir os mistérios de um manuscrito, a protagonista passa por uma jornada pessoal que mudará sua vida.

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“As Memórias do Livro: romance sobre o manuscrito de Sarajevo”, de Geraldine Brooks

Tempo: para ler pouco a pouco em intervalos durante a semana
Finalidade: para se emocionar
Restrição: para quem não gosta de longas descrições
Princípios ativos: Livros, História, investigação, antissemitismo e cultura judaica.

Hanna Heath é uma restauradora de livros conservadora que vive em Sydney, na Austrália. Sua carreira é testada quando ela recebe um telefonema às duas da manhã com uma proposta irrecusável: analisar e recuperar um famoso manuscrito judaico. Trata-se da Hagadá de Sarajevo, um livro que encerra muitos mistérios – Como sua criação foi possível, uma vez que contrariava a proibição às ilustrações? Como teria conseguido sobreviver às censuras sofridas durante a História? Procurando responder essas perguntas, a protagonista do livro mergulha em pesquisas sobre os rastros encontrados, como a asa de um inseto, uma mancha avermelhada ou um pêlo branco. Ao mesmo tempo, conhecemos mais da sua vida pessoal: seu relacionamento problemático com a mãe e seu envolvimento amoroso em sua estadia em Sarajevo.

Com “As Memórias do Livro”, Geraldine Brooks, vencedora do prêmio Pulitzer de ficção (com a obra “O Senhor March”), ganhou dois prêmios na Austrália (como melhor livro australiano e como melhor livro de ficção literária australiano). Brooks escreve os capítulos dos livros alternando o presente e o passado, todos conectados pela Hagadá de Sarajevo. Essa escolha da autora traz a sensação de que estamos lendo vários contos. A linguagem é fácil e flui tranquilamente.

Os acontecimentos passados fogem da perspectiva da protagonista Hanna. A partir dos vestígios encontrados por ela no presente, Brooks apresenta teorias de como eles puderam ser encerrados no livro. São apresentados diferentes pontos de vistas, em diferentes lugares, tendo grande espaço a abordagem do antissemitismo ao longo da história. A primeira teoria apresentada é ambientada em Saravejo, durante a segunda guerra mundial. Passando por Viena, em 1894, e por Veneza, em 1609, a jornada termina na península ibérica, com duas passagens: em Tarragona (1492) e em Sevilha (1480). A última passagem é muito interessante, pois apresenta ao leitor uma hipótese para a criação de um livro judaico com ilustrações, algo inaceitável para a maioria dos judeus na época. As teorias criadas por Brooks são muito criativas, prendendo a atenção do leitor.

Por outro lado, os capítulos que se passam no tempo atual do livro (entre os anos de 1996 e 2002), não são tão interessantes quanto à ficção histórica criada pela autora. A vida pessoal de Hanna não é tão cativante quanto o seu trabalho. Seu romance em Saravejo não tem muita força para convidar o leitor a se envolver e se apaixonar. Sua relação com a mãe, que é uma médica famosa que não aceita o fato da filha não ter seguido uma carreira tradicional, poderia ter sido mais bem trabalhada. Fica faltando o desenvolvimento psicológico da personagem Hanna para que sua vida pessoal fosse mais instigante.

“As Memórias do Livro” é um ótimo livro para aqueles que são apaixonados pela História, especialmente se interessados nos acontecimentos que rodearam grandes conflitos europeus, como a Segunda Grande Guerra e o fim da União Soviética. Também é interessante para aqueles que gostam de conhecer culturas diferentes. Sempre com a ressalva de que se trata de um romance inspirado por alguns poucos fatos verídicos, sendo a grande maioria de acontecimentos e personagens totalmente fictícios.

Resenhado por Gabriela Alkmin

384 páginas, Editora Ediouro, publicado em 2008.
*Título original: “People of the Book”. Publicado originalmente em 2008.

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