As lendas de Arthur

//Por Sheila Vieira - domingo, 25 de abril de 2010 às 09:50

Um dos reis mais controversos da História (e da Literatura), Arthur tem suas lendas contadas pela autora Marion Zimmer Bradley, na obra “As Brumas de Avalon”. Lançado em 1979, o livro traz personagens femininas marcantes, como Guinevere e Morgana. Confira aqui a resenha de Luciana Zulpo sobre as tragédias familiares e épicas da futura Grã-Bretanha, através de uma perspectiva histórica esclarecedora e uma narrativa empolgante.

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“As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley

Tempo: obra que exige muito tempo e dedicação
Finalidade: para pensar
Restrição: tem dificuldade com pontos de vista alternativos
Princípios ativos: Druidas, cavalaria, magia e lendas Arthurianas.

Rei Arthur. Camelot. Cavaleiros da Távora Redonda. Santo Graal. São palavras que surgem em nossas mentes sempre que pensamos em contos épicos de cavalaria. É possível falar que As Brumas de Avalon conta a história da ascensão e queda do rei Arthur, sob a perspectiva de suas heroínas. Trata-se também de Avalon, um lugar encontrado somente por aqueles que conhecem o segredo das brumas que o envolvem ─ o domínio dos druidas e da Senhora do Lago. Entretanto, são descrições limitantes. Ao contrário do que a temática sugere, não encontramos cenas detalhadas de grandes batalhas e torneios. O foco é muito mais intimista. O sangue jorrado é na maioria das vezes interno, psicológico, do que literal.

O estilo do narrador é algo a ser destacado. Em terceira pessoa, ele parece acompanhar um personagem por vez, sabendo só o que este sabe. São incluídas as digressões, as hesitações e correções dos pensamentos deles, fazendo a narração parecer muito mais natural e espontânea − como se tivéssemos acesso direto à mente dos personagens, sem mediadores.

Talvez a essência do livro, muito mais do que embates de espadas, seja o a análise do processo de construção, destruição e reconstrução – em todas as instancias. Em maior escala vemos isso acontecendo com os reinados de Uther Pendragon e Arthur. Então vemos o mesmo se dando no intimo de cada personagem, especialmente em Morgana, irmã de Arthur. É a ela a quem o narrador sede a voz em alguns momentos; por ela somos iniciados na sabedoria druida de Avalon e ao culto a Deusa, que é profundamente baseado nessa natureza cíclica de todas as coisas.

Sendo um dos arquétipos mais antigos, a Deusa está presente em variadas culturas ─ no Japão ela é Amaterasu Omikami, na Grécia, Deméter, no Tibet, Dakini. Segundo C.P. Estés, ela é “a força da vida-morte-vida; é a incubadora. É a intuição, a vidência.. É a que gira como uma roda enorme. É a criadora dos ciclos.”. Assim como as estações na natureza, celebradas nos ritos druidas, a alma também tem as suas: o tempo de se expor ou de se recolher, de falar ou calar-se, de celebração ou de luto.

Morgana é sacerdotisa da Deusa. A compreensão dessa religiosidade é um estudo da psicologia em seu sentido primitivo: psukhè, alma; logos, conhecimento, ou seja, conhecimento da alma. Não é algo que se obtém de imediato; é um processo que se estende pela vida toda, adquirido por toda parte, em qualquer condição. O leitor acompanha trajetória de Morgana desde a infância até a velhice, sua construção como sacerdotisa, sua destruição e recuperação; seus ciclos como irmã, amante, maga, rainha.

Ao mesmo tempo em que a vemos chegando ao ápice da sua face sacerdotisa, observamos a derrocada de Avalon e da religião druida, que lentamente perde lugar para o cristianismo. Os antigos cultos passam a ser proscritos – alguns rituais são proibidos, como s fogueiras de Beltane. Recorrer aos poderes da intuição e pressentimentos inatos ─ que são chamados pelos druidas de Visão ─ passam a ser considerados sintomas de alguém maligno e voraz. O relacionamento com a natureza, com a Deusa, torna- se espectral. Essa discussão permeia todo o livro e não pode ser ignorada. Até que ponto houveram mudanças ou apenas uma nova roupagem?

Logo no prefácio, Morgana nos diz: “A verdade tem muitas faces e assemelha- se a velha estrada que conduz a Avalon: o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade e de nossos pensamentos.(…) Assim, talvez a verdade se situe em algum ponto entre Glastonbury, a ilha dos padres, e o caminho de Avalon, perdido para sempre nas Brumas do Mar do Verão”.

Só existe um jeito de encontrar o caminho pelas brumas: abrindo o livro.

Resenhado por Luciana Zulpo

1024 páginas, Editora Imago, publicado em 2008.
*Título original: “The Mists of Avalon”. Publicado originalmente em 1979.

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Categorias: Luciana Zulpo, Resenhas
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